quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Bezerra da Silva e Rey Jordão - Partido Alto Nota 10 vol. 3 - 1980


01. Mulambo só; 02. Mulher da melhor qualidade; 03. Meu pirão primeiro; 04. Cara de cruel; 05. Todo enrolado; 06. Velha demais; 07. Matemática do feijão; 08. Boi que morre na minha fazenda; 09. Greve dos ladrões; 10. Lei da Madeira; 11. Caboclo Porrete; 12. Tô com o poderoso.


Saudações a todos! Eu já estou há quase vinte dias tentando escrever um post sobre a importância do feminismo para o homem, e não consigo atinar com a forma certa de fazê-lo; se eu dou um formato mais intimista e insiro passagens de minha vida que se relacionem ao tema ou eu trato do assunto de uma forma mais generalista.... Mas, enquanto estou aqui nestes dilemas, eu posso resenhar mais uma das obras dos meus guardados, pois, como eu já disse anteriormente aqui, não é preciso muito para se escrever uma resenha musical; basta ouvir a obra e ter noções gerais de história da música e do gênero em que a obra se enquadra...


Assim sendo, digamos alguma palavras sobre este disco do grande Bezerra da Silva, lançado em parceria com Rey Jordão, sambista que posteriormente ainda lançou um outro disco solo bonzinho e depois sumiu (eu tenho esse disco que citei; talvez um dia eu resenhe ele aqui neste humilde blog)... É um dos discos integrantes da série "Partido Alto Nota 10", que caso os leitores não saibam, foi a série que lançou Bezerra da Silva rumo ao estrelato. E, dos cinco discos desta série, este é o melhor de todos, além de ser o último em que o Bezerra da Silva aparece cantando (nos dois seguintes, ele ficou só no apoio da percussão; em todos os seus discos, além de cantar, Bezerra costumava tocar três ou mais instrumentos).


É mais um disco no melhor estilo "bezerriano", ou, melhor dizendo, no mais autêntico samba dos morros cariocas, no qual Bezerra se destacou ao dar voz a inúmeros compositores populares, que falavam das coisas relativas à sua vida: a criminalidade, as dificuldades econômicas e sociais do morador das favelas, as macumbas, as rodas de samba e partido-alto... Abençoado seja Bezerra da Silva, que, como falei na resenha de outro disco dele que fiz para este blog, fez os mais recalcados saírem cantando: "Vou apertar/mas não vou acender agora"... E fica o conselho: não morra sem ouvir Bezerra da Silva!


Para ouvir a faixa 05, "Todo enrolado", é só clicar nesse vídeo aí embaixo:




E para ouvir a faixa 12, "Tô com o poderoso", clica nesse vídeo aqui:



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Cânticos da Vovó Juventina - 1983


01. Vovó me Contou; 02. Patuá da Vovó; 03. Presença da Vovó; 04. Dá um nó; 05. Cura da Vovó; 06. Caboclo Tira Teima; 07. Magia da Vovó; 08. Sete Saias; 09. Coité da Vovó; 10. Aruê, aruê; 11. Bate tambor; 12. Ela Veio da Bahia.


Saudações a todos! Vamos começar o ano fazendo o que de melhor eu fiz nos três anos e meio que este blog está no ar: resenhas cagadas sobre obras musicais que quase ninguém escuta, mas que nem por isso deixam de ser boas... A propósito, creio que aqui cabe uma breve explanação sobre este proceder: quando as idéias faltam, resenhar discos é muito mais fácil, pois basta apenas você escutar a obra, ter noções de história da música e conhecer razoavelmente o gênero musical no qual a obra a ser resenhada se encaixa. Atendendo estes requisitos, a resenha sai que é uma beleza...


E desta vez vamos a uma obra tão bonita quanto rara da música umbandista: o LP gravado por iniciativa dos filhos do Cantinho da Vovó Juventina da Bahia, templo do Rio de Janeiro, vencedor de vários festivais de música umbandista nos tempos de dantes. Sobre estes festivais, eu já fiz uma pequena explanação sobre eles em postagens anteriores, e também cumpre lembrar que, em outras épocas, alguns templos lançavam discos em tiragem limitada pra que a venda destes os ajudasse a se manter financeiramente. Nessa prática surgiram pérolas da música sacra nacional, bastante cobiçadas por colecionadores pela sua raridade e por seu valor histórico, religioso e antropológico. E esta obra que ora resenho não foge a regra; obtive uma cópia dela graças a um bem bolado com um famoso colecionador de obras do gênero (vejam a minha lista de blogs favoritos e entrem no "Acervo Tambor", ali está o inventário desta rica coleção).


Na obra em si, o que podemos encontrar são cantigas de louvação, retraduzidas como sambas (todas as faixas do disco, com exceção de uma, são dedicadas à Vovó Juventina), com um excelente acompanhamento: atabaques bem tocados, um afoxé bem ritmado e um cavaquinho safado mandando ver em todas as faixas (na contracapa do disco, está dizendo que um tal de Jair o estava tocando. Será que não é o mesmo Jair que fez parte da ala de compositores da Portela, da Velha Guarda da mesma escola de samba, e dos lendários grupos Voz do Morro e Cinco Crioulos?) Aliás, a capa do disco contém a indicação dos intérpretes das faixas, dos compositores das mesmas, dos músicos e de todos os envolvidos em sua produção, coisa rara nos discos de umbanda.


Resumidamente, é um disco muito bonito, bastante representativo do que é a música e a cultura umbandista, e que está no rol dos que você, mesmo que não seja da "banda", deve ouvir pelo menos uma vez na vida. Foi difícil escolher uma faixa para degustação habitual; o disco inteiro é irrepreensível! Enfim, fica a esperança de que um dia voltem a ser produzidas obras do porte desta que tive a honra de resenhar porcamente aqui nesse espaco, obras que remetem a um tempo que os umbandistas tinham mais orgulho de sua religião e mais zelo em praticá-la e cantá-la. Pra falar das coisas do santo em música é preciso respeito, mas também é preciso alegria e sentimento...


Para ouvir a faixa 11, "Bate Tambor", é só dar um clique aí embaixo: 

http://www.esnips.com/displayimage.php?pid=34276867

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Umas palavrinhas sobre religião



"Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe" - Dunus Escoto, teólogo que viveu entre os séculos XII e XIV.


Saudações a todos! Vou iniciar este post falando uma verdade inconveniente, e que venho guardando há muito tempo: apesar de ter uma religiosidade, a minha fé no divino não é totalmente incondicional. Eu ainda creio, mas esta fé não é completamente cega e desprendida; ela precisa um pouco de fundamentos minimamente tangíveis para se sustentar...


No meu caso, eu tive algumas evidências: eu posso ver a manifestação visível das entidades que cultuo; posso conversar com elas, não de forma metafísica, mas naturalmente, do mesmo jeito que conversaria com um amigo num bar ou como estou agora aqui me comunicando através deste blog; pude ver alguns efeitos físicos inacreditáveis da manifestação das divindades (acredito que esse seja o ponto mais delicado, porque eu tento analisar racionalmente os fatos, mas até agora vejo que não há sugestão capaz de me dizer que é possível alguém segurar achas de carvão em brasa/apagar um charuto no céu de sua boca e não se queimar ou pelo menos ficar com alguma marca visível, ou que é igualmente possível alguém beber em poucas horas dois litros de pinga e não correr um sério risco de vida). Mas, afinal de contas, como estas evidências não podem ser controladas, isoladas e reproduzidas à vontade em um laboratório, com resultados invariáveis, elas não são insofismáveis, e assim seguimos a vida...


Pelo menos até o presente momento, no (até agora) restrito círculo de pessoas com quem convivo, lido e me comunico, há católicos, evangélicos, ateus, agnósticos, umbandistas e até mesmo budistas, não foram tantas as vezes em que fui pessoalmente achincalhado ou diminuído por causa de minha religião, e nas (algumas) vezes em que isto aconteceu a coisa não partiu de ninguém ateu ou agnóstico; inclusive, até onde eu pude notar, as manifestações mais eloquentes de apoio e de respeito à minha crença partiram, em sua maioria, de pessoas que não a comungam, não só da minha crença como de crença religiosa alguma. Mas ultimamente, tem ganhado força um papo de que a religião (a coisa é mais direcionada ao cristianismo, mas pode se aplicar a qualquer crença, mesmo à uma crença politeísta) é perniciosa ao ser humano, impedindo o pensamento crítico e racional... Enfim, que se você é de alguma foma religioso ou espiritualizado, você é um babaca obtuso, se comparado a quem é ateu...


Em primeiro lugar, vamos deixar claro que ninguém gosta de ser visto como ou ser chamado de babaca; as pessoas podem tolerar as mais radicais revoluções no que for, mas se estas revoluções mexerem em um milímetro na superestrutura fundamentadora de seu cotidiano e de sua vida privada, elas começam a resistir e a chiar. E em segundo lugar, acreditamos que a religião, em si, é como a física e a química: não é algo bom nem ruim em si... 


Durante todo o período colonial e ainda por um um bom par de décadas depois da independência, talvez mesmo até alguns anos depois da proclamação da república, ordens religiosas católicas (tanto regulares como leigas) foram as criadoras e mantenedoras das únicas entidades prestadoras de assistência social que existiam no Brasil, numa época em que inexistiam políticas públicas deste gênero. Mas a Igreja também tem uma ligação muito antiga com as forças conservadoras desta nação... A mesma Química que auxiliou na descoberta da penicilina também nos legou o DDT e a talidomida, e a Física que tão fundamental foi e é para a compreensão da realidade universal foi o berço formativo dos criadores das armas atômicas... Ou seja, tudo depende do uso que se faz da religião e das ciências da natureza...


Qualquer religião será digna de censura se for usada pra justificar preconceitos, manter injustiças sociais ou mesmo se ela se pretender "científica"... A ciência moderna tem pouco mais de 500 anos, e as religiões mais seguidas do mundo não têm menos de 1600 anos; portanto é uma grande impostura dizer que o conhecimento religioso (como, por exemplo, a doutrina criacionista) é sustentado pela ciência. Por outro lado, o conhecimento científico de que dispomos sobre a vida e sobre o universo ainda não dá, e talvez nunca dê, conta de solucionar todos os questionamentos e desafios pelos quais passamos. Isso sem contar que coisas como o racismo, a homofobia, a eugenia, o higienismo, o darwinismo social e a gentrificação dos espaços urbanos já tiveram seus dias de verdade científica universal... E todos pensam que isso tudo que eu citei é coisa de nazista...


Negar o papel da religião na história, nas sociedades e nas culturas humanas é uma prova de quanto desconhecemos por completo esta mesma história, cultura e sociedade. Ou melhor dizendo, de quanto somos pretensiosos em achar que só porque fizemos algumas (milhares de) leituras, ou porque possuímos o domínio dos métodos e do referencial teórico de alguma ciência, que compreendemos e conhecemos os rumos da história humana... Como se o conhecimento, e mesmo a humanidade, fossem estáticos e nunca mudassem... Que, sabemos, melhor do que a maioria das pessoas, o que é melhor para elas. Que, afinal, estamos quase chegando no ponto de fazer com que uma filosofia de vida se torne uma "contra-religião" (Se nos já fizemos isso com o positivismo e o kardecismo, por que razão não poderíamos fazê-lo com o ateísmo e até mesmo com o agnosticismo - seria até mais fácil com este último???) E, da mesma forma, achar que a religião pode suplantar a ciência e o conhecimento humano é fechar os olhos para a realidade dos últimos 500 anos da história universal... Quão atrasado e covarde é usar a fé no divino para justificar e sustentar os mais perniciosos e censuráveis preconceitos!


Por trás disso tudo creio que há uma verdade inconveniente: numa democracia, cabe aos cidadãos escolher o que é melhor para suas vidas. E se eles estiverem fazendo em determinado momento as escolhas menos acertadas e racionais, eles devem perceber e sofrer por si próprios as implicações de suas escolhas, e não serem guiados pela intelligentsia que, afinal de contas, sabe mais do que ninguém o que é melhor para a coletividade. Pode ser um processo lento e doloroso, mas isto é a democracia, meus caros! 


Enfim, é uma discussão entre quem tem razão e quem tem razão, entre pessoas que estão a um só tempo cem por cento certas e cem por cento equivocadas. Mas acredito que ambos os lados necessitam desarvorar um pouco de suas razões, pois que coisa mais arrogante se julgar possuidor de todas as certezas sobre a vida, o mundo e o universo, não é mesmo??? Falamos tanto em tolerância e em aceitação do Outro, mas pouco a praticamos, e quando a praticamos, o fazemos de maneira a estabelecer relações desiguais de hierarquia entre nós, os tolerantes, e o Outro, alvo de nossa benevolente tolerância...


Pra finalizar, vou botar aqui a música "Alucinação" do Belchior (cara que ouvi até cansar na  minha infância, no toca fitas do carro da família), que ilustra bem a minha postura sobre esta e outras questões... Poderia dizer que é um dos meus hinos particulares (os negritos na letra da música são meus, e acredito que sejam os versos mais eloquentes dela):


"Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais...

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...


Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!...

Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
"Play it cool, Baby"
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...

Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais..."



E chega de papo, pois, como diz a letra, afinal de contas o que vale mesmo é amar e mudar este largo mundo!

domingo, 18 de novembro de 2012

Raça Brasileira - 1985



01. Raça Brasileira; 02. Leilão; 03. Maravilhas do amor; 04. Feirinha da Pavuna; 05. Mal de amor; 06. Santa paciência/Bamba de berço; 07. Garrafeiro; 08. Pingueira; 09. Ingrata paixão; 10. Pomba rolou; 11. A vaca; 12. Pedra no caminho/Bagaço da laranja.


Saudações a todos! Finalmente venci a preguiça e farei uma resenha (coisa de leigo, vocês já sabem) sobre um dos mais famosos "pau de sebo" da música nacional... Pra quem não sabe, "pau de sebo'' é uma gíria da indústria fonográfica, que designa nada mais, nada menos do que uma espécie de coletânea onde se lançam vários artistas iniciantes (com cada um cantando em uma ou duas faixas, geralmente), a título de teste de popularidade. O apelido vem de uma série de coletâneas de músicas de festa junina (nordestina, principalmente) que a CBS lançou durante alguns anos (15 volumes, entre 1967 e 1981), e que tinha o nome de "Pau de Sebo", daí esta gíria designar o tipo de disco que eu citei...


E alguns desses "paus de sebo" ficaram muito famosos, e deram origens a outros volumes... Temos, por exemplo, os três discos do "Roda de Samba" lançados pela CID, e este LP que ora resenho teve ainda duas continuações (que nem de longe chegaram na originalidade e na qualidade deste), e teve o mérito de revelar ao grande público dois grandes nomes do samba: Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra. É bem verdade que ainda participaram do LP Mauro Diniz (filho de um dos maiores - se não o maior - sambista vivo da Portela, Monarco, e compositor de vários sucessos de Zeca Pagodinho), Pedrinho da Flor (lançou uns dois ou três LPs solo, ainda é um grande compositor e foi durante alguns anos intérprete do Império Serrano) e Eliane Machado (lançou ainda uns dois LPs solo bonzinhos e depois sumiu, o que foi uma pena), mas foram Zeca e Jovelina que realmente fizeram sucesso... Podemos até dizer que o pagode nasceu com este disco (já haviam grupos como o Fundo de Quintal, Almir Guineto e Jorge Aragão já haviam começado a sua carreira solo com relativo sucesso e o Zeca já tinha composições suas gravadas por outros intérpretes, mas podemos dizer que o pagode, e por extensão o samba, foi jogado durante alguns anos na ponta do mainstream a partir deste disco).


E justamente pelo fato de ter colocado em evidência dois dos maiores ícones da geração que não só nos ensinou a gostar de samba, mas que revolucionou o ritmo nacional (ao introduzir novos instrumentos na sua base, e lhe dar um andamento mais rápido e alegre). A partir deste disco, o samba foi novamente alçado às paradas de sucesso; sob a batuta da RGE, bons discos do gênero foram produzidos, e vários nomes puderam chegar ao disco (pena que nem todos se firmaram). E por incrível que pareça, esta geração é criticada até hoje por muitos puristas: é difícil falar sobre isso, mas o samba tem inúmeros preconceitos exclusivistas, sobretudo quando cria a figura do "bamba" e quando concentra seus instintos puristas em quatro ou cinco artistas tidos como "mestres"; se você não tem a sorte de ser um "bamba" ou veio depois dos mestres, você não é bem-vindo para os puristas, ainda que essa geração tão criticada por eles tenha sido e muito inspirada pelos antigos, sobretudo na divulgação da obra destes... E o Zeca Pagodinho ainda está ai na ativa (embora um pouco decadente), como nome mais popular do samba, embora a Jovelina tenha sido tão cedo retirada da presente vida por um infarto (aos 54 anos, em 1999). Pelo menos agora ela está versando em outros planos...


Enfim, é uma obra que, apesar de não ser genial, é bastante bonita e agradável de ser ouvida, principalmente por ser um marco na história do ritmo nacional que é o samba... E eu, que nasci no mesmo ano da obra, sinto-me orgulhoso em afirmar que nasci junto com o pagode...  E, como diz a faixa escolhida pra a degustação:


"Tira a viola do saco
E afina o cavaco 
Por favor
Que o samba é um remédio
Que cura o tédio
E o mal de amor"


Para ouvir a faixa 04, "Mal de amor", na interpretação de Mauro Diniz, clica no vídeo aí embaixo:  


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Vº Festival Nacional de Cantigas de Umbanda (1975), ou Isto é que é Umbanda (1977)


Capa original do disco


Capa da reedição, em 1977


01.Hora de Rezar; 02.Pedra Lírio de Xangô; 03.Flores de Obaluaê; 04.O mundo encantado de Janaína; 05.O canto de Tupi; 06.Irôco; 07.Ressurreição; 08.Toada de Boiadeiro; 09.Vovó Chica; 10.Festa do Caboclo Folha Verde; 11.Venham as Crianças; 12.Prece a Tupã.



Saudações a todos! Vamos de novo atacar com aquilo que mais sabemos fazer aqui nesse blog: resenhas cagadas e mequetrefes sobre obras bem feitas e agradáveis. E dessa vez vamos com uma obra importante para a música umbandista: o LP com as cantigas vencedoras do quinto festival nacional de cantigas de Umbanda, realizado em 1975 (aliás, não sei porque dizer "nacional", uma vez que não só esses festivais eram realizados no Rio de Janeiro como todos os templos vencedores eram de lá)...


Mas afinal, o que eram esses festivais??? Eles tinham o objetivo de promover não só uma competição musical entre os templos que participassem desse evento (e onde as cantigas mais apreciadas seriam gravadas em disco), mas de ser um momento onde o maior número possível de comunidades religiosas estivessem reunidas, compartilhando os seus saberes musicais... Vale lembrar aqui que a música umbandista pode ser dividida em dois cortes: as cantigas de "raiz" e as cantigas de "louvação". Já expliquei aqui em outra postagem a diferença entre elas, mas não me traz cansaço explicar que as cantigas de "raiz" são ditadas diretamente pelas entidades espirituais e possuem um fundamento mágico-religioso por trás delas, enquanto as de louvação, apesar de serem inspiradas pelas entidades, e tem o intuito de, como diz sua designação, apenas de louvar e saudar as entidades a que se dirigem. E há ainda as composições profanas que contam apenas com o gênio de seu autor, mas pra falar das coisas do santo em música profana é preciso cuidado extremo e um zeloso respeito pelas coisas sagradas...


Zelo este que tem faltado nos atuais festivais de música umbandista, onde as composições inspiradas pelo mundo astral ou mesmo aquelas feitas profanamente com esmero tem perdido espaço para sambas-enredo ruins onde dão um jeito de enfiar no meio os nomes das entidades... E o que é pior, os caras pensam que estão louvando o orixá ou o guia espiritual, mas estão sendo ofensivos com eles, seja, por exemplo dizendo que tomarão uma cerveja com Zé Pelintra num bar, ou que Exu desceu do morro pra trazer maconha pro pessoal "dar um pega" no terreiro... Não digo nada das implicações espirituais que isso traz ao levarem tais composições para dentro de um espaço religioso, mas sim falo do completo mau gosto das músicas... Vemos os CDs de um "Atabaque de Ouro" da vida e das 20 faixas que normalmente o CD tem, não podemos aproveitar mais do que três... Além dos problemas que eu citei, há dois que eu considero bastante graves:


O primeiro é o fato de que os atuais festivais perderam o sentido que originalmente tinham, de reunir numa competição o maior número possível de comunidades religiosas, que bem ou mal de alguma forma trocavam seus saberes musicais e religiosos, ao apresentar seus pontos na competição. O que vemos hoje em dia é uma disputa de vaidades entre escolas de curimba e alguns templos mais famosos, como se fosse um desfile de escolas de samba. E onde os vencedores quase sempre são os mesmos, e onde o que é valorizado é apenas a habilidade artística de quem está tocando, cantando e/ou compondo, e não a mensagem espiritual que ele está querendo passar. O segundo problema é o fato de que grande parte da tradição musical umbandista está se perdendo, e o fundamento religioso contido na música é de primordial importância para o ofício religioso umbandista e até mesmo para o funcionamento e a existência do templo enquanto comunidade religiosa.... Até me imagino já velho (se eu  alcançar a velhice) sendo interpelado pelos meus netos perguntando: "Vô, como que é aquele ponto de preto-velho que o senhor canta de vez em quando?"E lá irei eu puxar pela memória e cantar aquela velha cantiga há muito tempo esquecida...


E este disco que resenho é um dos últimos festivais "primitivos", com cantigas de louvação ainda hoje usadas dentro dos templos, como as dedicadas a Xangô e a Obaluaiê. Não chega a ser um disco genial, mas é um disco que nos faz desejar que este espirito de integração religiosa retorne aos festivais de música umbandista... Vamos parar por aqui que pra escrever isso foi um parto de quadrigêmeos...


Para ouvir a faixa 10, "Festa do Caboclo Folha Verde", é só clicar no vídeo aí embaixo:



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

As desilusões da vida acadêmica


Eis aí a coisa mais acadêmica que tenho feito de uns tempos pra cá: aumentando meus conhecimentos sobre música umbandista...  Esse LP aí, apesar de ser particularmente raro e cobiçado por colecionadores (se você é um e viu essa foto, aviso que ele NÃO está à venda!), não é bonito nem genial; é uma coletânea de músicas de inspiração umbandista que o J.B. de Carvalho (famoso cantor da Época de Ouro da MPB) lançou anteriormente em discos de 78 rotações.... Mas o autor tem o mérito de ter sido um dos primeiros a fazer sucesso na gravação de temas umbandistas (paralelamente a uma carreira profana de relativo sucesso), e de ter sido pioneiro em demonstrar a ponte existente entre a música popular brasileira e as religiões de matriz africana....


  
Um dia desses, eu falei a alguém que estava (e estou) desiludido com a História... Justo agora, que estou a um passo de concluir minha licenciatura… Falei a este alguém (e ainda comungo um pouco desse pensamento) que, de certa forma, a História é uma ciência sem futuro, porque quase nunca conjetura sobre o futuro, mas sim sobre o passado através da visão do presente, dentro de um corte temporal determinado… Que, enquanto ciência, ela ainda está muito presa dentro de sua metodologia e de seus fetiches; aquela coisa de que Bloch e Febvre puseram há 80 e poucos anos atrás no editorial do primeiro número da revista dos Annales, de “levantar-se contra os temíveis esquemas historiográficos”, ainda está por se fazer dentro da historiografia… Ainda existe, dentro da ciência histórica, uma dificuldade (pra não dizer resistência teimosa) muito grande pra se lidar com fontes não-escritas, embora se fale muito da importância de se usar a tradição oral, ou mesmo os elementos da cultura material e até mesmo imaterial enquanto fontes históricas. Isso sem contar que o processo que transformou a História numa ciência independente das demais ciências humanas praticamente cortou as possibilidades de diálogo da História com as demais ciências...


Pelo amor de Deus, manos meus, eu não quero com isso dizer que a ciência histórica e o estudar História não são relevantes! Muito pelo contrário; é fundamental admitir antes de mais nada que a humanidade e as sociedades são fruto de um processo histórico, e que só puderam existir e se desenvolver enquanto investidas de um caráter histórico e de condicionantes históricas... Entretanto, por essas razões que citei (e por muitas outras mais), vejo que a História, como futuro acadêmico e de pesquisa, não dá mais pra mim, e isso eu percebi quando estava escrevendo meu tcc…


Que, como certamente eu já devo ter falado pelo menos alguns milhares de vezes (e não me traz cansaço repetir isso), versou sobre a música umbandista na ótica do patrimônio cultural imaterial (uma disciplina ainda nova dentro da História). O único grande trabalho de pesquisa que fiz em toda a minha vida foi alvo de descrédito e chacota (muito embora eu tenha recebido um 10 de meu orientador – de 40 trabalhos, só 5 levaram um 10 do orientador; tive colegas que se dedicaram a pesquisa de um tema desde o começo da graduação com um único orientador e não levou esta nota - não direi quem são nem o que estavam pesquisando porque senão serei emasculado em praça pública! - Pelo menos de uma coisa que fiz na vida eu tenho o direito de me orgulhar, não é mesmo???) apenas porque meu trabalho não está definido dentro de um corte temporal preciso, e nem se prende nas velhas amarras e fetiches da historiografia….  E, principalmente, pela falta de uso de fontes escritas... Mas ora, se o trabalho está baseado nas problemáticas da cultura imaterial, e está usando como fontes elementos da cultura imaterial, como ele pode ser baseado em documentos escritos??? Tá certo que utilizamos obras escritas, mas apenas pra fundamentarmos as premissas levantadas pela nossa pesquisa, e não para serem nossas fontes!


Mas vale confessar, entretanto, que esta não foi minha única desilusão acadêmica: a primeira foi logo no primeiro semestre da licenciatura, quando descobri que filosofia, essencialmente, pouco ou nada tem a ver com aquilo que fazemos numa acalorada conversa de bar entre amigos, onde conjeturamos sobre os mais diversos assuntos (Isto é, que, a rigor, não existem "filósofos de botequim", e muito menos "filosofia de bar"). Sim, a filosofia ainda tem este sentido de investigação/especulação sobre a realidade universal, mas ela está muito mais preocupada em analisar os argumentos e as teorias sob o crivo da lógica (nesse sentido, qualquer teoria, mesmo sendo a mais reacionária, é perfeitamente válida se estiver encadeada dentro dos princípios da lógica - que, como sabemos, é um ramo da matemática) e de organizar e delimitar tudo em categorias definíveis (por exemplo: se eu usar o termo "belo", devo explicitar que conceito de "belo" eu estou usando. Se é o "belo" de Aristóteles, de algum pensador humanista do Renascimento, etc.). É espantoso saber que a mesma Filosofia que inicialmente pretendeu abarcar todos os ramos do conhecimento humano é uma das principais responsáveis pela divisão deste mesmo conhecimento em áreas específicas e separadas entre si...


E acabo de sofrer mais um baque, ao descobrir que, por uma exigência burocrática, não poderei iniciar minha pós-graduação imediatamente após o término de minha licenciatura... Eu fui, por curiosidade, visitar a página do programa de pós-graduação em Sociologia da USP (que, para mim, tem linhas de pesquisa que vão de acordo com meus interesses acadêmicos). E, ao ver o edital do último processo seletivo para o mestrado nesse programa, descubro que o número de vagas para as linhas de pesquisa que me interessavam  (Sociologia da Religião) é restrito (2 professores, uma vaga pra cada um), e que há uma prova de proficiência de línguas na qual é exigida uma tradução precisa e um texto no idioma escolhido pelos candidatos (inglês, francês ou alemão), não sendo permitidas "traduções livres"... Pois bem, é bem verdade que, numa pós-graduação, você não pode deixar de ler uma obra ou um autor importante apenas porque esta obra ou o autor não foram traduzidos ainda para o português (ou porque a tradução está porca, por não ter sido feita por um especialista na área ou no autor), mas o que significaria exigir uma tradução precisa??? Tá certo que o meu inglês não é bom, mas eu creio que consigo ler com um mínimo de segurança qualquer texto, ainda que eu precise ser acompanhado por dicionários ao meu lado (o "comum" e o de verbos), mas uma tradução exata e precisa.... Os caras estão dispensando dessa prova quem apresente certificados de proficiência, mas os testes para obtê-los são caros pra cacete...


Se bem que todo mundo sabe que, oficiosamente, os lambe-saco de professor, preparados desde cedo por estes para se dedicar à pesquisa, recebem um "tratamento diferenciado" na prova de proficiência, ou na entrevista com a banca... Puxar saco de quem quer que seja, seja qual for o motivo, é algo que eu tenho como profundamente execrável e digno de feroz censura. E, a rigor, o cenário é este: os puxa-sacos são preparados dede o começo da graduação pra se dedicar a pesquisa, e o resto é preparado pra consumir sua vida , sua saúde e sua inteligência no magistério do ensino básico... E, quando fui ver quais eram as pesquisas que os alunos do programa estão desenvolvendo, fui assaltado da seguinte dúvida quanto a algumas coisas que pude ver: "Meu Deus, será possível que essa gente está recebendo dinheiro público pra fazer durante 3, 4 anos, uma pesquisa porca sobre um tema que não tem a menor relevância social, ou que pouco contribuiria para a renovação temática e metodológica da área??? (Espero estar enganado)....


Enfim, é relativamente duro constatar que aquilo que você pensava que seria a grande chance da sua vida, em termos de crescimento e progresso pessoal e social, está se tornando na maior decepção dela... Ainda vejo um futuro para a História como disciplina do ensino básico, e ainda acredito que vou dar uma de self-made-man e conseguir heroicamente saltar por cima de todos os obstáculos que se impuserem aos meus sonhos de um futuro  acadêmico promissor. Quem sabe tudo esteja como na seguinte frase de Amós Oz, celebre escritor israelense de que compartilhei um texto aqui nesse blog: "Tudo que está baseado apenas em um sonho fatalmente tende a se tornar uma cruel decepção"...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Poema em linha reta, por Fernando Pessoa (no alter-ego de Álvaro de Campos)

Álvaro de Campos em espelho, na visão de Almada Negreiros (multiartista português)


(Os negritos são meus)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.