segunda-feira, 8 de julho de 2013

Chitãozinho e Xororó - A Força Jovem da Música Sertaneja (vol. II) - 1977


01. Querida; 02. Para sempre comigo; 03. O homem do campo; 04. Amor da minha vida; 05. Caminhando pela vida; 06. O comício terminou; 07. A flor da noite; 08. O pobre e a rosa; 09. Aquelas águas serenas; 10. Adeus amor; 11. O tempo trouxe a saudade; 12. Sozinho na estrada.


Saudações a todos! Depois de um longo período de tempo sem escrever aqui para o blog, onde estive entulhado de trabalho e onde sofri um acidente que me deixou incapacitado por algum tempo, vamos mais uma vez com uma breve resenha, pra ver se eu acalmo um pouco da obsessão musical que me aflige neste momento (caso vocês não saibam, por vezes algumas músicas e alguns artistas se fixam de tal forma em meu cérebro que em não consigo parar de pensar neles, e isso por vezes dura vários dias).


E justamente agora, quando volto a escrever esta resenha vários dias depois de tê-la iniciado, a obsessão em questão se concentra na obra de Chitãozinho e Xororó, que teve uma peculiaridade: dos cerca de quarenta álbuns que eles lançaram ao longo de 43 anos de carreira (eles cantam profissionalmente desde o começo da adolescência e já estão beirando os 60 anos de vida) os cinco primeiros não fizeram sucesso algum, e juntos não chegaram a 50 mil cópias vendidas (Ou seja, praticamente foi só para a divulgação em rádios e para um ou outro aficionado da música sertaneja). Se eu não estou enganado, neste período eles não viveram exclusivamente da música, trabalhando como feirantes na capital paulista.Se bem que o estilo deles só se firmou a partir do quarto álbum, quando finalmente a voz deles alcançou o timbre da idade adulta...


No álbum seguinte a este que eu resenho, finalmente tiveram o primeiro sucesso da carreira, com a música "60 Dias Apaixonado", e já chegaram as 100 mil cópias. Dobraram a conta no álbum seguinte, com o single "Amante Amada", e chegaram ao primeiro milhão de cópias em seu oitavo álbum (marca que bateram outras 10 vezes), "Somos Apaixonados", com os singles "Fio de Cabelo" e "Obras do Poeta". Isto é, camelaram bastante (12 anos de carreira, mais precisamente) para chegar ao estrelato, e abriram caminho para um novo refluxo da música sertaneja, que voltava as paradas de sucesso (melhor dizendo, voltava a ser um filão da indústria fonográfica), muito embora este retorno tenha implicado um pouco de abandono do estilo conhecido como "de raiz" para uma abordagem mais popular...


E nós percebemos que a dupla foi chegando ao sucesso conforme foi se aproximando deste novo estilo... Dito isto, o que chama a atenção é que este disco marca a consolidação do estilo de cantar dos dois, quando a voz do Xororó, primeira voz da dupla, fica madura (na época ele estava com 20 anos), demonstrando que ele já teve um alcance vocal incrível, que acabou perdendo com o passar dos anos... Eu fico até pensando se eles chegaram a renegar esta "obra imatura", como vários outros artistas fizeram (aparentemente não, porque todos os seus discos desta época foram reeditados em cd), pois não vemos eles se reportando a ela... Mas o que importa é que estamos diante de um bom disco, que aliás é um dos melhores do gênero que eu já pude ouvir....


Para ouvir a faixa 10, "Adeus amor", basta clicar no vídeo aí embaixo:


 

domingo, 24 de março de 2013

No pior dos dias, ou sobre o ideal que não morre

Eis o elenco desse ano (mais tarde ainda chegaram outros jogadores, como o Tuta), apontado por muitos como a pior equipe que já defendeu as cores grená e branco...



Eis o elenco com o qual conquistamos a Taça de Prata (atual Série B do Brasileiro) em 1983. Sim, seus futebolistas de Playstation, o Juventus da Mooca já foi campeão brasileiro um dia!



Este sábado, dia 23 de março de 2013, foi o pior dia da história do Clube Atlético Juventus. Ao perder em casa por 3 a 1 para o Guaratinguetá, a equipe foi rebaixada para a terceira divisão do Campeonato Paulista, pela segunda vez em sua história. Depois de ter conquistado de forma heróica a volta para a segunda divisão  do Paulista no ano passado, a diretoria do clube fez um péssimo planejamento: tivemos quatro técnicos diferentes no decorrer deste ano, dois dos quais não ficaram mais do que três jogos comandando a equipe; além disso, apostamos na contratação do Tuta (sim, aquele mesmo que jogou no Palmeiras e no Fluminense), que no alto dos seus 40 anos revelou-se um peso morto na equipe.


E, o pior de tudo, ao invés de tratarmos de arranjar jogadores que pudessem efetivamente integrar a equipe, ficamos ventilando a hipótese da construção de um novo estádio, a "Arena Juventus", cousa das mais tresloucadas: não há espaço disponível para ampliarmos nosso atual estádio, que está espremido entre a Rua Javari, a Rua dos Trilhos e as casas dos "nonnos", ainda mais em um lugar que está altamente valorizado pela especulação imobíliária; como não temos recursos próprios pra uma empreitada desse porte, teríamos que recorrer a algum investidor, o que praticamente obrigaria o arrendar-se a agremiação por vários anos para os mesmos; que lucro teríamos em construir uma "arena" para 20 mil pessoas para um time que com muito esforço junta 2 mil pessoas num jogo importante, e mal junta 500 nos jogos "normais"??? O que se alega é que nosso atual estádio não oferece condições para recebermos os grandes clubes e nem para se fazerem partidas noturnas, por não haverem refletores.


Bastaria fazer como sempre fizemos: jogamos contra os grandes no Pacaembu e damos um jeito de instalar os refletores no nosso estádio, mas a Federação Paulista está criando exigências para que os clubes adequem seus estádios aos "padrões internacionais" de conforto e segurança, exigências essas que a maioria dos clubes não possui condições financeiras de cumprir... E esse é precisamente o mal do Juventus e de outros tantos times: não há mais espaço no futebol para eles. Tudo por causa da mentalidade dos que acham que para o nosso futebol voltar aos dias de glória (já tem um tempinho que estamos longe de ser os "reis do futebol"), devemos imitar com fidelidade canina o que é feito no futebol dos principais países europeus. Sobretudo no que toca à qualidade técnica dos times, onde em cada campeonato nacional o título é realmente disputado por no máximo quatro equipes, e as demais só aparecem pra servir de sparring a esses quatro times, pra deixar as fotos e demais imagens mais diversificadas e pra dar a ilusão de que a disputa é democrática. No nosso caso, a mídia tenta nos mostrar como o último bastião do futebol romântico (coisa que, se formos ver, realmente somos, mas não somos os únicos a ter esta honra), mas o faz deixando bem claro que este é o nosso lugar, do qual não devemos sequer pretender sair. Não se cogita que um dia voltemos a ter um lugar ao sol ao lado das grandes equipes, ou que possamos voltar a disputar campeonatos de ponta.


Em outra ocasião, eu já havia falado neste blog (mais precisamente aqui) sobre a minha paixão pelo E.C. XV de Novembro de Jaú. Pois bem, esta paixão ainda continua, mas desde que eu escrevi aquelas linhas muita coisa mudou. A situação deste time se depauperou consideravelmente; caímos para a quarta e última divisão do Campeonato Paulista, e estamos afogados em inúmeras dívidas, que dilapidaram consideravelmente o patrimônio do clube. Uma nova diretoria assumiu o clube e, ao que parece, demonstrou seriamente a intenção de tirar a agremiação deste mar de lama. Nesse interim, por influência de alguns amigos da universidade, acabei conhecendo melhor o time do Juventus. Quando dei por mim, já estava berrando loucamente sob uma bruta chuva enquanto comemorava o gol de empate do Moleque Travesso (apelido carinhoso da equipe juventina) contra um time de empresários qualquer; a paixão já havia me tomado por inteiro.


Tive alguns momentos de dilema, principalmente em uma tarde de fevereiro do ano passado, quando eu e mais 456 pessoas fomos ver o Juventus jogar contra o XV de Jaú na Rua Javari, em partida válida pela terceira divisão do Paulista. Nunca me senti tão dividido em toda a minha vida: enquanto comemorava os gols do Juventus (que venceu este jogo por 2 a 0), me sentia entristecido por ver o Galo da Comarca (apelido carinhoso do XV de Jaú) praticamente entregue às baratas em campo. Ainda tive alegrias tremendas, como a que senti quando o Juve finalmente conseguiu o tão sonhado acesso (que pena que este ano tudo foi posto a perder), ou quando quase derrubei dois sujeitos de uma altura de cerca de quatro metros, ao subirmos no alambrado do Setor 2 pra comemorar o gol de virada do Juve contra o São Bento, na estréia da Copa Paulista do ano passado... E as vezes em que pisei na Javari, acompanhado dos fiéis amigos que me apresentaram ao time??? 


E eis que aparecem os cachorrinhos de polícia deste estado de coisas em grande parte sustentado pela mídia pra dizer que toda estas alegrias não têm o menor valor. Que "devemos nos adequar aos tempos modernos". Que o futebol deve se tornar um esporte asséptico, calculista, metódico e abúlico. Que antes de ser um esporte, o futebol seja um negócio rendoso. E que, antes de mais nada, nos dê a ilusão de que é democrático e igualitário, onde todos têm chances iguais de se darem bem, e os que porventura fracassam é porque "não tiveram competência suficiente".


Para os que pensam assim, para os que desejam que a emoção do futebol se extingua por completo, para os que do conforto de suas arenas e de suas salas arejadas com TVs de plasma jamais souberam o que é realmente torcer para um clube, se empapando na chuva, sofrendo queimaduras do sol, e nem sempre (muitas vezes quase nunca) vendo bons resultados ou títulos, eu digo o seguinte: o Juventus, o XV de Jaú e vários outros times ainda estão na ativa, sobrevivendo como podem e como não podem, contra tudo e todos, porque são muito mais do que apenas clubes de futebol. Eles representam um Ideal. Jogadores, dirigentes e torcedores (até mesmo este que vos fala) vão partir um dia; ninguém vai ficar pra semente. Mas um Ideal, meus caros, nunca morre. Só morre quando não houver mais quem se disponha a sustentá-lo. E isso os amantes do que certo jornalista chama de "times de verdade" têm de sobra: disposição pra manter este Ideal vivo. Isso pode parecer muito piegas, mas de que vale a vida se ela não estiver minimamente calcada em uma paixão, em um Ideal a ser seguido ou alcançado??? Reflitam nisto!

domingo, 17 de março de 2013

"Sexualidade feminina: sempre escorreu pelas beiras da sociedade"



Saudações a todos! Antes que, finalmente, me venha a inspiração para escrever de próprio punho alguma coisa sobre o feminismo, vou por ora compartilhando textos de outras pessoas, coisa que não fiz por muitas vezes (com esta, será a quinta) por aqui. E, mais uma vez, vou compartilhar (com o devido consentimento) com vocês que ainda visitam este blog mais um texto de Mariana, uma das que citei em minha última postagem. E que, acredito, seja um texto bastante adequado pra iniciarmos algumas reflexões sobre o assunto:


“Ao longo da história, as mulheres foram invisibilizadas pela sociedade, sempre se deixando atribuir por papéis domésticos sem impacto político, social, ou cultural”


Não existe uma falácia tão complicada quanto essa; ela está presente até em livros de grande circulação que abordam o tema feminismo com seriedade, entretanto com esse descaso histórico no mínimo catastrófico. Essa colocação de invisibilidade social praticamente só cabe à mulher quando, na antiguidade, a história perpassa pelos patrícios, pelos plebeus, pelos escravos, e a mulher ainda é ressaltada por muitos como invisível, sendo que dos citados, apenas os patrícios eram verdadeiramente ativos na política.


A invisibilidade dos homens que não participavam da política é ressaltada por figuras como Platão, Sócrates, etc., uma pequena minoria que dá uma falsa ideia de liberdade para todos os homens; existiam homens invisíveis também. Sociedades bárbaras costumavam dar os atributos da guerra as mulheres, enquanto aos homens cabia a tarefa doméstica.


E mesmo diante da ideia de uma mulher caseira, embora lutemos por expressão social, é no mínimo preconceituoso imaginar que essa mulher não é ninguém na sociedade, é novamente menosprezar o papel de intensidade da mãe, por exemplo; que pode não estar engajada nas causas políticas, mas está passando toda a moral, valores sociais, etc., em idades incisivas, além da mulher ter ficado como a oradora, a que ensina a língua a criança, e faz dessa herança cultural importantíssima ser levada adiante, por essa razão que geralmente as mulheres tendem a ter uma oratória mais persuasiva.


O problema está para quando afirmamos que o correto é ser apenas a mulher da casa, ou apenas a mulher política, a liberdade feminina é sufocada, o individualismo feminino é sufocado, e todas têm que ser iguais. Vemos muitas brechas históricas onde um nome de um homem é ressaltado diante de uma multidão enfurecida que causou o verdadeiro impacto social. O que seria do mundo das ideias sem as atitudes? Não adiantaria muita coisa, visto que ambos, como diria Sócrates, precisam estar conectados.


Por que somente as ideias masculinas são repassadas? Ainda se tem uma ideia de superioridade, mesmo que disfarçada; na Revolução Francesa aprendemos as ideias de Jean Jacques Rousseau, e mal sabemos que existem mulheres tão engajadas na política quanto o próprio, principalmente em reivindicar direitos a mulher. Mulheres como Marie-Henriette Xaintrailles, que enfrentaram os próprios revolucionários, que apesar da sede de mudança, ainda estavam com os pensamentos permeados no conservadorismo.


Isso sem contar que a maioria das pessoas que participaram de momentos clássicos da revolução como a queda da Bastilha, e da própria guerrilha, foram mulheres. Mulheres do comércio, mulheres da casa, mulheres como qualquer outra, que de ‘sexo frágil’ não demonstravam nada, pelo contrário, chegavam a ser tão robustas quanto os próprios homens da revolução. 


Essas mesmas eram chamadas de ‘mal amadas’, como se a função do sexo feminino fosse simplesmente ser amada. E nesse ponto que Simone de Beauvoir comenta que a mulher não nasceu para agradar ao outro, ela é radicalmente educada, mesmo que ela sinta uma eterna frustração nisso tudo, mesmo que a maioria das mulheres no fundo sintam ojeriza da ideia de casamento, da ideia de parto, de tudo que consideram "o sonho das mulheres" nas utópicas novelas, de tudo isso que é sinônimo de sufocamento individual em definitivo.


Quando a mulher perde a função do seu corpo, dos seus órgãos, de que para uma criança, uma menina, as pernas são para andar, e após ela começar à puberdade a sociedade introduz a ideia de que as pernas são para se observar, todo o corpo feminino não passa de uma vitrine social. Parece que seu corpo como disse Simone, escapa de si.


Escapa tanto, que começa a ser objeto, objeto de observação, de vigilância social, de moralidade, de status. Não importa o quanto está inteligente, coerente, engajada, penetrada, tem que estar bela, tem que fascinar apenas pelo superficial; o que seria a beleza feminina, nada além dessa superfície da carne. 


Umberto Eco faz várias divagações sobre o que é belo, e entre essas divagações fica bem claro que o belo não é apenas uma questão estética, está muito além disso, mas no caso das mulheres parece ser a única coisa que se importa e que se espera. Não precisamos ir longe à tempos históricos, a Dilma Rousseff é julgada pela cor que estava vestindo na ocasião, e não pelas palavras, pela inteligência.


Embora isso seja instrumento de fascínio, no xeque mate parece não valer muita coisa. Parece até sinônimo de coisa ruim, aquela coisa medieval de que a mulher boa é a submissa, a santa. E ainda me choco, quando vejo notícias como a da Professora de Letras de São Carlos, sendo assassinada por não corresponder o aluno. Mulher, ainda sendo vista como propriedade, como simples animal de reprodução, não como cidadã, como ser humano.


É a situação do objeto e da posse, a mulher se torna mulher para posse, e se você não for "minha", não será de ninguém, pois seu corpo a mim pertence, e nunca a você. Essa é a ideia que mata, e quem finge que não, sabe que está sendo um tanto hipócrita. Crimes passionais em geral têm mulheres como vítima, é a grande maioria massacrante das vítimas, pois não é puramente uma questão individual de um distúrbio, e sim uma questão social toda criada. É a mesma sociedade que se choca, mas que diz: “Mulher que traí merece morrer”.


E esse crime passional, de matar "por amor", faz pouquíssimo tempo que deixou de ser crime, na verdade ainda tem gente que acredita que mata por amor. Não, não matam por amor, matam por machismo. Matam porque pensam que a mulher não é digna de viver se não for como "minha".


Quem ama não mata.


Não adianta à mulher sair da sua casa, ser uma profissional, dominar a academia, as universidades, etc., sendo que ela ainda é vista como uma propriedade a ser adquirida. Sendo que ela ainda é vista só como instrumento sexual, e não com o respeito pelas suas atitudes, pelo seu profissionalismo. É preciso ser radical, pois, como podem ver, a sociedade não pega leve com as mulheres, o feminismo é necessário. E desconstruir essa imagem de que a mulher foi apenas uma expectadora da história também é mais do que necessário.


Mary Del Priore, uma das mais fantásticas historiadoras brasileiras, comenta sobre sexualidade feminina desde os tempos de Colônia, sobre como ela jorra pelos cantos, como ela se desvia das demandas sociais. Sobre como, por exemplo, dentro do convento, existiam relações sexuais mais liberais do que fora do mesmo, pois a "militância" era menor. Dentro do convento, imagina na sociedade? Nunca conseguiram "domesticar" a mulher, mesmo com livros ditos "sagrados" a sexualidade feminina sempre foge a regra. Mesmo que a regra não mostre isso.


Muitas mulheres se sentiam livres lá, não eram santas. Como as amigas se envolviam sexualmente nas tardes inteiras dentro dos quartos, e ninguém desconfiava pelo fato de acreditarem que o prazer sexual feminino está ligado a penetração apenas. Como as chamadas ‘bruxas’ acreditavam na magia e na força feminina que ia além do esperado, além das demandas sociais; era uma forma de pensar independência a partir de uma identidade dogmática, sim, mas ainda sim era uma forma de se reafirmar com autonomia e tirar um pouco do sufocamento social.


A mulher sempre utilizou de artimanhas para sair pelas beiras, para sua sexualidade não ser sufocada; a diferença é que nenhum tempo é igual o outro, não é possível comparar as necessidades sociais da mulher medieval com a contemporânea, mal podemos comparar as próprias no campo sexual.


Pensar sobre a mulher é pensar sobre a liberdade de ser a mulher, não somente nas mulheres em geral; se você pensar sempre no plural pode cair naquele engano de, por exemplo, o fato de você nunca abortar ser sinônimo de proibir todas as demais do mesmo. Isso não é uma busca pela liberdade, é outra forma de opressão.


E ainda existem pessoas que acham que o feminismo é desnecessário. Curiosamente, todos os maiores intelectuais da área das humanas que não tenham se vendido demais por aí, são todos a favor do feminismo.


A intelectualidade diz: feminismo é sociedade justa, sociedade contra diferenciação de gênero.

domingo, 10 de março de 2013

No Dia Internacional da Mulher, três exemplos para lembrarmos que esta data é de luta!

Saudações a todos! Há muito eu estava pensando em fazer um post sobre a temática feminista, e não atinava com a melhor forma de fazê-lo. Mas, durante esta semana que se acabou, eis que encontro na linha do tempo de meu face três exemplos vindos de três mulheres que eu sigo ali. 


Duas delas foram minhas colegas de turma na Universidade Federal de São Paulo, e a terceira é uma pessoa que conheci por acaso nas minhas andanças pela web, e com a qual ainda mantenho uma ativa correspondência virtual (já compartilhei coisas dela aqui nesse blog). Durante um bom tempo, sempre pensei que o feminismo fosse uma questão menor, de interesse restrito às mulheres e que nós, homens, pouco tínhamos a ganhar com isso.


Mas, com o passar do tempo, e sobretudo por causa dos debates que tive com a última das pessoas que citei, fui ver que estava completamente enganado, principalmente por duas razões que citarei agora: a) apesar de estarmos já no século XXI, a mulher ainda é colocada numa relação de total, ou quase total, subordinação em relação ao homem. Em todos os cantos do mundo, na maior parte das sociedades humanas e em todas as classes sociais, seu comportamento, sua forma de vestir e sua vida ainda estão sob a avaliação e o crivo do homem, e ela é vítima desta e outras violências oriundas deste controle. E o feminismo luta para erradicar todas estas injustiças; b) Ao contrário do que pensamos, o feminismo também diz respeito sim ao homem; pode parecer que não, mas ele também se encontra aprisionado dentro de papéis que ele se vê obrigado a exercer: em todos os instantes de sua vida, ele é coagido a se comportar de forma "viril", a entender a mulher como estando a seu serviço e lhe é vedado ter qualquer comportamento não considerado como "masculino". Como chorar, por exemplo...


Eu mesmo desenvolvi um bloqueio sério quanto a isto; apesar de eu ser emotivo e de sentir vontade de chorar até com final de blockbuster mela-cueca, há muitos anos que não consigo chorar genuinamente com nada. Se sinto vontade de fazê-lo, instintivamente eu reprimo esta vontade, e sinto que isso não me faz bem e que eu gostaria muito de poder chorar em certas situações para poder aliviar aquilo que no momento está me oprimindo. Poderia ainda falar mais sobre o feminismo e o quanto ele é necessário nos dias de hoje, mas deixarei isto para outra ocasião. Por ora, fiquemos com os exemplos dados por três mulheres de luta: Maria Fernanda, Mariane e Mariana (os compartilhamentos seguem esta ordem). O primeiro é de uma foto tirada na manifestação paulistana da Marcha Mundial das Mulheres, e as outros dois são textos que as citadas escreveram em seu face.


E mais: digo, sem medo de errar, que o marido da primeira e os namorados das demais são homens especialmente abençoados pelas forças sagradas de Umbanda em ser companheiros destas mulheres guerreiras, que sem dúvida trazem consigo o axé de Iansã e de todas as pomba-giras (apesar de as três serem atéias - da segunda não tenho bem certeza), as mais belas, guerreiras e insubmissas entre todas as divindades! Que um dia estas mesmas forças e divindades que citei me dêem a honra (se dela eu for merecedor) de ter nos meus caminhos e na minha vida uma mulher assim! E vamos ao que interessa! (publico sem licença das três, mas creio que irão me perdoar por isso!)


A foto que citei:




O texto de Mariane:

"Não quero pagar menos que um homem para entrar em um bar. Quero dividir sempre a conta em um restaurante com o meu namorado. Quero dar uma boneca para o meu filho brincar de ser papai, assim como as meninas brincam de ser mamãe. Quero que o tempo da licença paternidade seja igual ao da maternidade. Quero que o homem possa chorar quando tiver vontade. Quero que meus alunos não assobiem na sala quando uma menina entrar para dar um aviso. Quero usar um decote e uma saia curta no trem sem me sentir assediada/desrespeitada. Quero que meus sobrinhos e primos estejam mais acostumados com meninos de mãos dadas do que com armas na cintura. Quero que haja fraldário no sanitário masculino. Quero que meu filho possa usar saia e roupa rosa se tiver vontade sem sofrer discriminação. Quero que filhas possam dormir no quarto com os namorados assim como os filhos dormem com as namoradas. Quero que não haja risadas quando o assunto se tratar de um estupro. Quero que os homens possam se cumprimentar com um beijo no rosto sem se sentirem reprimidos. Quero que as mulheres possam ficar e se relacionar com quem quiserem, quantas vezes quiserem, sem ter que ouvir que elas "não são pra casar". Quero que os homens lavem a louça sem achar que estão AJUDANDO, mas conscientes de que são responsáveis por suas tarefas. Quero que os maridos não achem que é obrigação das esposas trazerem o prato pronto na mesa. Quero que as mães solteiras possam namorar sem sofrer discriminação. Quero que vassourinhas e panelinhas não sejam brinquedos exclusivos de meninas. Quero que meus amigos transcendam o "não sou homofóbico" e, também, não se incomodem se seus filhos forem gays. Quero um mundo onde o racismo, a homofobia, o machismo, o sexismo, o preconceito, a gordofobia, a misoginia não sejam tratados como se não existissem, mas que sejam enfrentados diariamente porque, ainda, constituem regra e não exceção" 


E, por fim, o texto de Mariana:

"Dia das mulheres hoje. E o que tenho a dizer?
Muito, muito mesmo, pois sou.
"Não se nasce mulher, torna-se" já diria Simone Beauvoir, justamente por não termos uma 'função natural', muito menos um cérebro 'de mulher', temos a sexualidade feminina, apenas, não temos limites.


Esse dia foi criado pela esquerda, a mesma que dizia que não existe uma grande mulher por trás de um grande homem, e sim, ao lado, a mulher que luta está ao lado, sendo representada por si mesma, e não ao lado no quesito de heterossexualidade, ao lado no quesito de igualdade.


Igualdade de gêneros, esse foi o objetivo desse dia, as mulheres cumpriam exatamente a mesma função dos homens e recebiam menos, menos por quê? As intelectuais femininas se mostraram capazes igualmente, tanto é, que a Simone se mostrou capaz até de derrubar uma teoria que é um mito, a teoria de Freud que a mulher inveja o genital masculino.


E não é um dia para ressaltar e fazer nenhuma mulher ser 'princesa', nem mais que ninguém, é um dia de reflexão. Não existem limites sexuais, existem apenas preconceitos, não existe 'natureza feminina' e 'pensamento feminino', existe apenas imposição social.


As mulheres que tem admiração pela 'roupa' da outra, pela imagem que passa, e não admiram a personalidade das outras mulheres por quê? Pior, se sente enojadas com a imagem da nudez feminina, o que no fundo é uma vergonha do próprio corpo sendo projetada nas demais. Admita-se, e tenha orgulho do seu corpo, saia dos estereótipos, seja você. Você não é 'as mulheres', você é a mulher.


E isso não te faz mais, nem menos, te faz apenas você ser você mesma. Não precisa sorrir, não precisa agradar, você não nasceu para agradar, você nasceu para lutar, ser mulher, tornar-se"

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Bezerra da Silva e Rey Jordão - Partido Alto Nota 10 vol. 3 - 1980


01. Mulambo só; 02. Mulher da melhor qualidade; 03. Meu pirão primeiro; 04. Cara de cruel; 05. Todo enrolado; 06. Velha demais; 07. Matemática do feijão; 08. Boi que morre na minha fazenda; 09. Greve dos ladrões; 10. Lei da Madeira; 11. Caboclo Porrete; 12. Tô com o poderoso.


Saudações a todos! Eu já estou há quase vinte dias tentando escrever um post sobre a importância do feminismo para o homem, e não consigo atinar com a forma certa de fazê-lo; se eu dou um formato mais intimista e insiro passagens de minha vida que se relacionem ao tema ou eu trato do assunto de uma forma mais generalista.... Mas, enquanto estou aqui nestes dilemas, eu posso resenhar mais uma das obras dos meus guardados, pois, como eu já disse anteriormente aqui, não é preciso muito para se escrever uma resenha musical; basta ouvir a obra e ter noções gerais de história da música e do gênero em que a obra se enquadra...


Assim sendo, digamos alguma palavras sobre este disco do grande Bezerra da Silva, lançado em parceria com Rey Jordão, sambista que posteriormente ainda lançou um outro disco solo bonzinho e depois sumiu (eu tenho esse disco que citei; talvez um dia eu resenhe ele aqui neste humilde blog)... É um dos discos integrantes da série "Partido Alto Nota 10", que caso os leitores não saibam, foi a série que lançou Bezerra da Silva rumo ao estrelato. E, dos cinco discos desta série, este é o melhor de todos, além de ser o último em que o Bezerra da Silva aparece cantando (nos dois seguintes, ele ficou só no apoio da percussão; em todos os seus discos, além de cantar, Bezerra costumava tocar três ou mais instrumentos).


É mais um disco no melhor estilo "bezerriano", ou, melhor dizendo, no mais autêntico samba dos morros cariocas, no qual Bezerra se destacou ao dar voz a inúmeros compositores populares, que falavam das coisas relativas à sua vida: a criminalidade, as dificuldades econômicas e sociais do morador das favelas, as macumbas, as rodas de samba e partido-alto... Abençoado seja Bezerra da Silva, que, como falei na resenha de outro disco dele que fiz para este blog, fez os mais recalcados saírem cantando: "Vou apertar/mas não vou acender agora"... E fica o conselho: não morra sem ouvir Bezerra da Silva!


Para ouvir a faixa 05, "Todo enrolado", é só clicar nesse vídeo aí embaixo:




E para ouvir a faixa 12, "Tô com o poderoso", clica nesse vídeo aqui:



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Cânticos da Vovó Juventina - 1983


01. Vovó me Contou; 02. Patuá da Vovó; 03. Presença da Vovó; 04. Dá um nó; 05. Cura da Vovó; 06. Caboclo Tira Teima; 07. Magia da Vovó; 08. Sete Saias; 09. Coité da Vovó; 10. Aruê, aruê; 11. Bate tambor; 12. Ela Veio da Bahia.


Saudações a todos! Vamos começar o ano fazendo o que de melhor eu fiz nos três anos e meio que este blog está no ar: resenhas cagadas sobre obras musicais que quase ninguém escuta, mas que nem por isso deixam de ser boas... A propósito, creio que aqui cabe uma breve explanação sobre este proceder: quando as idéias faltam, resenhar discos é muito mais fácil, pois basta apenas você escutar a obra, ter noções de história da música e conhecer razoavelmente o gênero musical no qual a obra a ser resenhada se encaixa. Atendendo estes requisitos, a resenha sai que é uma beleza...


E desta vez vamos a uma obra tão bonita quanto rara da música umbandista: o LP gravado por iniciativa dos filhos do Cantinho da Vovó Juventina da Bahia, templo do Rio de Janeiro, vencedor de vários festivais de música umbandista nos tempos de dantes. Sobre estes festivais, eu já fiz uma pequena explanação sobre eles em postagens anteriores, e também cumpre lembrar que, em outras épocas, alguns templos lançavam discos em tiragem limitada pra que a venda destes os ajudasse a se manter financeiramente. Nessa prática surgiram pérolas da música sacra nacional, bastante cobiçadas por colecionadores pela sua raridade e por seu valor histórico, religioso e antropológico. E esta obra que ora resenho não foge a regra; obtive uma cópia dela graças a um bem bolado com um famoso colecionador de obras do gênero (vejam a minha lista de blogs favoritos e entrem no "Acervo Tambor", ali está o inventário desta rica coleção).


Na obra em si, o que podemos encontrar são cantigas de louvação, retraduzidas como sambas (todas as faixas do disco, com exceção de uma, são dedicadas à Vovó Juventina), com um excelente acompanhamento: atabaques bem tocados, um afoxé bem ritmado e um cavaquinho safado mandando ver em todas as faixas (na contracapa do disco, está dizendo que um tal de Jair o estava tocando. Será que não é o mesmo Jair que fez parte da ala de compositores da Portela, da Velha Guarda da mesma escola de samba, e dos lendários grupos Voz do Morro e Cinco Crioulos?) Aliás, a capa do disco contém a indicação dos intérpretes das faixas, dos compositores das mesmas, dos músicos e de todos os envolvidos em sua produção, coisa rara nos discos de umbanda.


Resumidamente, é um disco muito bonito, bastante representativo do que é a música e a cultura umbandista, e que está no rol dos que você, mesmo que não seja da "banda", deve ouvir pelo menos uma vez na vida. Foi difícil escolher uma faixa para degustação habitual; o disco inteiro é irrepreensível! Enfim, fica a esperança de que um dia voltem a ser produzidas obras do porte desta que tive a honra de resenhar porcamente aqui nesse espaco, obras que remetem a um tempo que os umbandistas tinham mais orgulho de sua religião e mais zelo em praticá-la e cantá-la. Pra falar das coisas do santo em música é preciso respeito, mas também é preciso alegria e sentimento...


Para ouvir a faixa 11, "Bate Tambor", é só dar um clique aí embaixo: 

http://www.esnips.com/displayimage.php?pid=34276867

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Umas palavrinhas sobre religião



"Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe" - Dunus Escoto, teólogo que viveu entre os séculos XII e XIV.


Saudações a todos! Vou iniciar este post falando uma verdade inconveniente, e que venho guardando há muito tempo: apesar de ter uma religiosidade, a minha fé no divino não é totalmente incondicional. Eu ainda creio, mas esta fé não é completamente cega e desprendida; ela precisa um pouco de fundamentos minimamente tangíveis para se sustentar...


No meu caso, eu tive algumas evidências: eu posso ver a manifestação visível das entidades que cultuo; posso conversar com elas, não de forma metafísica, mas naturalmente, do mesmo jeito que conversaria com um amigo num bar ou como estou agora aqui me comunicando através deste blog; pude ver alguns efeitos físicos inacreditáveis da manifestação das divindades (acredito que esse seja o ponto mais delicado, porque eu tento analisar racionalmente os fatos, mas até agora vejo que não há sugestão capaz de me dizer que é possível alguém segurar achas de carvão em brasa/apagar um charuto no céu de sua boca e não se queimar ou pelo menos ficar com alguma marca visível, ou que é igualmente possível alguém beber em poucas horas dois litros de pinga e não correr um sério risco de vida). Mas, afinal de contas, como estas evidências não podem ser controladas, isoladas e reproduzidas à vontade em um laboratório, com resultados invariáveis, elas não são insofismáveis, e assim seguimos a vida...


Pelo menos até o presente momento, no (até agora) restrito círculo de pessoas com quem convivo, lido e me comunico, há católicos, evangélicos, ateus, agnósticos, umbandistas e até mesmo budistas, não foram tantas as vezes em que fui pessoalmente achincalhado ou diminuído por causa de minha religião, e nas (algumas) vezes em que isto aconteceu a coisa não partiu de ninguém ateu ou agnóstico; inclusive, até onde eu pude notar, as manifestações mais eloquentes de apoio e de respeito à minha crença partiram, em sua maioria, de pessoas que não a comungam, não só da minha crença como de crença religiosa alguma. Mas ultimamente, tem ganhado força um papo de que a religião (a coisa é mais direcionada ao cristianismo, mas pode se aplicar a qualquer crença, mesmo à uma crença politeísta) é perniciosa ao ser humano, impedindo o pensamento crítico e racional... Enfim, que se você é de alguma foma religioso ou espiritualizado, você é um babaca obtuso, se comparado a quem é ateu...


Em primeiro lugar, vamos deixar claro que ninguém gosta de ser visto como ou ser chamado de babaca; as pessoas podem tolerar as mais radicais revoluções no que for, mas se estas revoluções mexerem em um milímetro na superestrutura fundamentadora de seu cotidiano e de sua vida privada, elas começam a resistir e a chiar. E em segundo lugar, acreditamos que a religião, em si, é como a física e a química: não é algo bom nem ruim em si... 


Durante todo o período colonial e ainda por um um bom par de décadas depois da independência, talvez mesmo até alguns anos depois da proclamação da república, ordens religiosas católicas (tanto regulares como leigas) foram as criadoras e mantenedoras das únicas entidades prestadoras de assistência social que existiam no Brasil, numa época em que inexistiam políticas públicas deste gênero. Mas a Igreja também tem uma ligação muito antiga com as forças conservadoras desta nação... A mesma Química que auxiliou na descoberta da penicilina também nos legou o DDT e a talidomida, e a Física que tão fundamental foi e é para a compreensão da realidade universal foi o berço formativo dos criadores das armas atômicas... Ou seja, tudo depende do uso que se faz da religião e das ciências da natureza...


Qualquer religião será digna de censura se for usada pra justificar preconceitos, manter injustiças sociais ou mesmo se ela se pretender "científica"... A ciência moderna tem pouco mais de 500 anos, e as religiões mais seguidas do mundo não têm menos de 1600 anos; portanto é uma grande impostura dizer que o conhecimento religioso (como, por exemplo, a doutrina criacionista) é sustentado pela ciência. Por outro lado, o conhecimento científico de que dispomos sobre a vida e sobre o universo ainda não dá, e talvez nunca dê, conta de solucionar todos os questionamentos e desafios pelos quais passamos. Isso sem contar que coisas como o racismo, a homofobia, a eugenia, o higienismo, o darwinismo social e a gentrificação dos espaços urbanos já tiveram seus dias de verdade científica universal... E todos pensam que isso tudo que eu citei é coisa de nazista...


Negar o papel da religião na história, nas sociedades e nas culturas humanas é uma prova de quanto desconhecemos por completo esta mesma história, cultura e sociedade. Ou melhor dizendo, de quanto somos pretensiosos em achar que só porque fizemos algumas (milhares de) leituras, ou porque possuímos o domínio dos métodos e do referencial teórico de alguma ciência, que compreendemos e conhecemos os rumos da história humana... Como se o conhecimento, e mesmo a humanidade, fossem estáticos e nunca mudassem... Que, sabemos, melhor do que a maioria das pessoas, o que é melhor para elas. Que, afinal, estamos quase chegando no ponto de fazer com que uma filosofia de vida se torne uma "contra-religião" (Se nos já fizemos isso com o positivismo e o kardecismo, por que razão não poderíamos fazê-lo com o ateísmo e até mesmo com o agnosticismo - seria até mais fácil com este último???) E, da mesma forma, achar que a religião pode suplantar a ciência e o conhecimento humano é fechar os olhos para a realidade dos últimos 500 anos da história universal... Quão atrasado e covarde é usar a fé no divino para justificar e sustentar os mais perniciosos e censuráveis preconceitos!


Por trás disso tudo creio que há uma verdade inconveniente: numa democracia, cabe aos cidadãos escolher o que é melhor para suas vidas. E se eles estiverem fazendo em determinado momento as escolhas menos acertadas e racionais, eles devem perceber e sofrer por si próprios as implicações de suas escolhas, e não serem guiados pela intelligentsia que, afinal de contas, sabe mais do que ninguém o que é melhor para a coletividade. Pode ser um processo lento e doloroso, mas isto é a democracia, meus caros! 


Enfim, é uma discussão entre quem tem razão e quem tem razão, entre pessoas que estão a um só tempo cem por cento certas e cem por cento equivocadas. Mas acredito que ambos os lados necessitam desarvorar um pouco de suas razões, pois que coisa mais arrogante se julgar possuidor de todas as certezas sobre a vida, o mundo e o universo, não é mesmo??? Falamos tanto em tolerância e em aceitação do Outro, mas pouco a praticamos, e quando a praticamos, o fazemos de maneira a estabelecer relações desiguais de hierarquia entre nós, os tolerantes, e o Outro, alvo de nossa benevolente tolerância...


Pra finalizar, vou botar aqui a música "Alucinação" do Belchior (cara que ouvi até cansar na  minha infância, no toca fitas do carro da família), que ilustra bem a minha postura sobre esta e outras questões... Poderia dizer que é um dos meus hinos particulares (os negritos na letra da música são meus, e acredito que sejam os versos mais eloquentes dela):


"Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais...

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...


Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!...

Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
"Play it cool, Baby"
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...

Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais..."



E chega de papo, pois, como diz a letra, afinal de contas o que vale mesmo é amar e mudar este largo mundo!