segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Os umbandistas não conhecem sua própria história e sua própria cultura

 
Sete da Lira, tão esquecido entre os próprios umbandistas!
 
Saudações a todos! Eu havia planejado escrever este post antes do último que publiquei, mas como já disse alguma vez por aqui, resenhar um disco é muito mais fácil. Assim sendo, falarei de um tema que, por conta de minhas pesquisas e de minha vivência na religião umbandista, se tornou bastante candente: quando estudamos a história, a música e a cultura umbandistas, notamos que há entre os próprios adeptos da religião um total desconhecimento da música e da cultura da Umbanda, isso pra não falarmos de uma total falta de zelo em preservar a memória histórica e cultural da religião...
 
 
Me explico: aqui mesmo no blog, eu contei por alto um pouco da história do Seu Sete da Lira de D. Cacilda, enquanto resenhava um dos três discos que foram lançados em sua inspiração (aliás, este é o post mais lido e comentado do blog até hoje). Eu comentei com alguns umbandistas mais velhos (entre os quais minha mãe de santo) sobre esta história, e perguntei se eles já haviam ouvido falar dela. E não é que nenhum dos que eu consultei disseram ainda se lembrar disso??? E estamos falando de uma entidade que roubou a cena dos dois maiores programas de TV das duas maiores emissoras da época, de tal forma que ensejou um maior arrocho da censura da ditadura militar na televisão; estamos falando de uma entidade que atraía todos os sábados em seu tempo milhares de pessoas, e seu legado desaparece assim, quase sem deixar rastro??? Felizmente, há dois sujeitos que foram filhos de santo deste templo, e que nesta e também nesta outra página do Facebook, postaram fotos e relatos que nos ajudam a entender um pouco desta história e não deixar o legado de Seu Sete da Lira se perder por completo.
 
 
Mas os casos de abandono e de esquecimento da memória histórica e cultural da Umbanda não param por aqui. Todos os que gostam de samba certamente já ouviram falar de D. Ivone Lara, ou certamente já ouviram ao menos uma vez uma de suas inúmeras composições. O que muito pouca gente sabe é que antes mesmo de gravar seus discos ela participou de um disco de inspiração umbandista, e não era um disco qualquer: era o último de uma famosa série de discos umbandistas, a "Saravá... Umbanda é Paz e Amor", na qual se gravaram inúmeros pontos ainda hoje utilizados nos terreiros, bem como várias composições de José Manuel Alves, autor do Hino da Umbanda; este disco, além de contar com a presença de D. Ivone Lara, conta também com a presença de duas cantoras bastante apreciadas na música do santo: Baianinha e Genimar (desta última eu resenhei aqui o seu apreciado disco - é o segundo post mais lido e comentado do blog); o disco contém jongos, toadas e sambas de inspiração nas coisas do santo, e ficou tão bom que serviu de base para duas coletâneas.
 
 
Mas, incrivelmente, esta informação não consta na página oficial de Dona Ivone ou na página da Wikpédia à ela dedicada. E isto é espantoso não só se considerarmos que é o governo do estado do Rio de Janeiro que financiou a criação da página oficial da cantora, mas também por considerarmos que este desconhecimento também grassa dentro do próprio meio umbandista. Só para provar que não minto, eis aí os fonogramas cantados por D. Ivone Lara. O LP em questão é raro, mas pude obter as faixas por virtude de uma coletânea que aproveitou boa parte das músicas dele:
 
 
 






Antes que alguém me acuse de estar difamando a imagem de uma famosa e respeitada sambista, ou mesmo de estar criticando injustamente minha própria religião, devo lembrar que as questões que pretendo levantar aqui são de muita pertinência neste momento em que tanto se discute qual é o papel da religião umbandista dentro da sociedade, como ela poderá se defender da intolerância religiosa da qual ela sempre foi vítima e que agora está sendo levada a cabo por algumas denominações cristãs, ou mesmo de que forma ela poderá gozar da legitimidade social plena, coisa que já tem legalmente, mas ainda não tem de fato. E aí eu me pergunto: como poderemos nos dedicar à estas tarefas se nem ao menos conhecemos o legado de nossa religião??? Se pouco ou nada sabemos de sua história, de sua música, de sua literatura???
 
 
Enquanto perdemos tempo e paciência discutindo infrutiferamente se devemos ou não usar atabaques, sacrificar animais, utilizar o fumo e/ou a bebida alcóolica ou mesmo cultuar os exus e pomba-gira dentro dos templos, estamos permitindo que todo um patrimônio histórico e cultural que não se pode encontrar em nenhuma outra religião ou grupo social do mundo morrer juntamente com seus detentores... E, se deixamos tal coisa acontecer, temos um grande prejuízo não só à religião, mas a todo o nosso saber enquanto humanidade... Se as outras religiões gabam tanto sua filosofia, sua história, enfim, sua cultura, porque nós umbandistas ainda não pudemos fazer o mesmo???
 
 
Como eu costumo dizer: as questões são muitas, e encontrar uma resposta para elas não é nada fácil. Mas eu espero que com estes breves exemplos, eu tenha dado uma pequena contribuição à este tema... Até a próxima!

terça-feira, 30 de julho de 2013

Botequim do Camisa - 1991


01. Hino do Botequim do Camisa; 02. Triste andança; 03. Minha sina; 04. Só quero você; 05. Obatalá; 06. Valeu; 07. Pé no chão; 08. Algo de valor; 09. Dona saudade; 10. Santa Luzia; 11. Foi a noite; 12. Hino do Camisa Verde e Branco.


Saudações a todos! Agora que a inspiração volta a nos favorecer novamente, vamos a mais uma resenha musical. Já falei aqui de como é relativamente fácil resenhar um disco, mas este daqui é especial, pois se  trata de um disco  bastante emblemático para o pagode paulista (mais conhecido como pagode mela-cueca), de que aliás eu tenho o prazer de possuir uma cópia em LP:  o disco com os grupos que se apresentavam no "Botequim do Camisa"!


Só para explicar, o "Botequim do Camisa" era uma balada de pagode promovida entre os anos 80 e 90 pela Camisa Verde e Branco, tradicional escola de samba de São Paulo (que é uma das maiores vencedoras do carnaval paulistano, mas já há alguns anos está caidinha lá no Grupo de Acesso), onde vários grupos se apresentavam pra animar a rapaziada; se não estou enganado, esse evento ainda hoje é realizado na quadra da escola. E entre os grupos de pagode que na época se apresentavam por lá estavam três que em nossa infância cansamos de ouvir no rádio: Negritude Júnior (cujo nome, vale lembrar, é inspirado no nome de legendário time da várzea paulistana, o Negritude F.C. da Cohab de Arthur Alvim), Sensação e Juventude do Pagode. E neste disco estão as primeiras gravações destes grupos...


Pois bem, apesar de muita gente torcer o nariz ainda hoje para essa modalidade do pagode, eu vejo que este foi um disco importante, não só porque lançou estes grupos que citei, mas porque esta obra de certa forma, se remete à nossa infância: me lembro nitidamente de algumas das músicas deste disco serem tocadas à exaustão nas FMs de São Paulo e região (era assim que aprendíamos as músicas no tempo em que não havia internet, ou quando o dinheiro para comprar LPs, fitas cassete ou CDs não chegava, meus caros!), e quem foi criado nas imediações desta metrópole nos anos 90 com certeza se lembra de uma música destes grupos que citei e de vários outros mais... Enfim, é algo que faz parte da história de nossa vida, e, por que não dizê-lo, da história musical de São Paulo...


A mesma gravadora (TNT Records) pela qual este disco  foi lançado ainda tentou emplacar obras semelhantes, como por exemplo os discos dos festivais de pagode da Caprichosos do Piqueri (bloco carnavalesco de São Paulo) e das Cohabs da Zona Leste de São Paulo, mas os discos (que também tenho aqui em casa) ficaram ruins demais, sobretudo na parte dos arranjos musicais; cada um tem no máximo três músicas boas. Pois bem ,acho que não há mais nada a dizer sobre esta obra, que à parte de conter composições de alguns nomes aclamados do samba paulistano (como Jorge Costa, Carica e Paquera) está disponível na web para todos ouvirem... Até o próximo post, que eu estou doido pra dar uma pitada!


Para ouvir a faixa 09, "Dona Saudade", na interpretação do já ido grupo Juventude do Pagode, clica nesse vídeo aí embaixo:

 

sábado, 27 de julho de 2013

Umas palavrinhas do que sei sobre feminismo

 
Essa foto já foi tirada há algum tempo, quando eu ainda estava com esse braço bom,
mas a idéia que ela traz ainda é válida...
 
 
Saudações a todos! Já tem algum tempo que eu estou tentando (e não estou conseguindo) escrever algo prestável sobre o feminismo, que pude conhecer melhor através de uma amiga que conheci pelas minhas andanças na web (de quem já compartilhei algumas coisas aqui); um dos fatores que retardou essa escrita foi a minha incurável preguiça, onde no meio do caminho sempre encontramos algo pra chamar a nossa atenção e nos distrair dos nossos objetivos iniciais. Outra foi o acidente que sofri (durante a última Virada Cultural em São Paulo, caí com o braço direito em cima de uma garrafa de cachaça que eu segurava, o que me valeu um punho quebrado, o nervo ulnar rompido com o corte da garrafa, cinco dias de internação na Santa Casa de São Paulo, uma longa cirurgia pra religar o nervo que se lesionou e a inutilização temporária do braço atingido. Estou melhor, mas ainda estou me recuperando)


Dito isto, vamos as explicações mais básicas do nosso tema. O feminismo, basicamente, é a idéia de que não devem existir quaisquer tipos de diferenças, preconceitos e distinções sociais que sejam motivados pelo gênero, ou seja, simplesmente pelo fato de alguém ter nascido "homem" ou "mulher" (vejam bem, eu coloquei estas duas palavras em aspas porque, entre outros pressupostos, o feminismo acredita que as definições de gênero vão muito além da definição biológica/genital de masculino e feminino, possuindo uma forte carga cultural). Portanto, a persistência destas diferenças, preconceitos e distinções (materializada em problemas como a violência doméstica, o assédio sexual, o estupro, o controle da sexualidade feminina, a divisão das atividades e gostos humanos por gêneros, etc) é vista dentro desta ótica revolucionária e libertadora não como algo justificado pela natureza, mas sim como uma opressão da mulher pelo homem, a qual damos o nome de machismo.


É claro que eu dei até agora uma definição bem sintética e básica (sintética e básica até o excesso, mas creio que está valendo) do que seria o feminismo; não desejo ser muito prolixo neste ponto, além de haver muita gente que já fez isso muito melhor do que eu... Intelectuais como Simone de Beauvoir e Naomi Wolf (as obras principais delas e de outras escritoras feministas estão disponíveis na web, é só digitar no Google "biblioteca feminista") deram as definições clássicas do tema, mas caso você esteja sem tempo ou com preguiça (que feio, mas acontece, não?) de ler os clássicos, o movimento feminista é tão didático que há pessoas mantendo blogs onde se abordam os temas do movimento de tal forma que uma passada por eles já faz você criar as primeiras noções sólidas no assunto: o Feminista Cansada, o Escreva Lola Escreva, o Blogueiras Feministas, entre vários outros (há vários outros que de momento não me recordo, mas creio que esses são os principais, e neles há links para outros tão bons quanto, mas não tão famosos).


E pra você que está pensando que o feminismo é um movimento que APENAS diz respeito à mulher, deixe-me dizer que você está redondamente enganado. Além de questionar e combater todas as situações que se mostram opressoras para a mulher, o feminismo também discute sobre os papéis de gênero. Quem disse que o homem tem que ser agressivo, calculista e mulherengo porque "isso faz parte de sua natureza"??? Quem disse que ele só pode chorar se sofrer uma grande perda (morte de parentes próximos ou de amigos, por exemplo)??? Quem disse que o valor de um homem é medido pelo número de parceiras amorosas/sexuais que ele tem ao longo de sua vida??? Que ele não deve ter nenhuma peça de roupa ou acessório na cor rosa??? Que não cabem também à ele todos os afazeres relacionados à limpeza e a manutenção do lugar onde  ele vive??? Como podemos ver, o machismo é tão odioso e nojento que não se contenta em oprimir a mulher, quer também moldar o comportamento do homem pra poder se perpetuar...


E para o homem que não se adequa a esse fluxograma, ou que se desvia um único milímetro dele, restam severas reprimendas de sua família, a gozação dos colegas (muitas vezes seguidas de bullying), enfim, todo o tratamento de luxo que a sociedade reserva aos seus desajustados. E isso eu pude perceber bem ao longo de minha vida... Por exemplo, hoje eu tenho um bloqueio sério quanto ao choro; eu já falei que sou tão emotivo que sinto vontade de chorar até com final de blockbuster-românticuzinho-mela-cueca, mas nesta e em outras situações meu choro se reprime instantaneamente, como se algo dissesse que meu pranto não é valido, ou é exagerado e impróprio para a ocasião (de fato, se contam nos dedos de uma única mão as vezes em que vi, por exemplo, meu pai chorar). Disso resultou que eu fiquei vários anos sem conseguir chorar genuinamente por nada, embora motivos e vontade não tenham faltado...


E quanto a pressão, ora implícita, ora explicita para termos uma vida amorosa e sexual ativa já na adolescência??? Nem vou falar aqui de quanto sofremos à toa por causa disso... Outra séria dificuldade (e aqui faço um mea culpa em rede mundial) é assumirmos de fato às obrigações referentes à limpeza e a manutenção de um lar, que como sabemos devem estar ao encargo de todos os seus habitantes não inválidos. Não que eu não saiba como fazer as coisas; até tive que aprender a fazer todos os afazeres domésticos em virtude de algumas vezes em que minha mãe ficou incapacitada por períodos relativamente longos (quando eu tinha 12 anos, minha mãe quebrou o braço esquerdo num tombo na rua; aos meus 16, minha mãe caiu de uma escada e quebrou a perna e aos meus 19 ela se submeteu à uma cirurgia pra extrair cistos em um dos ovários), ou em virtude de ocasiões em que me prometeram algum benefício ou me ameaçaram com algum castigo, mas esta preguiça que me é inata, somada ao tamanho de minha casa, me tem impedido de desempenhar das coisas da maneira que se poderia considerar como desejável...


Sei que esta fala não é muito abonadora, mas é um exemplo claro de quanto se desvencilhar por completo das práticas machistas é algo mais difícil do que podemos imaginar; no discurso, é muito legal, mas quão difícil o é na prática! Enquanto escrevemos um texto inflamado nas redes sociais condenando, por exemplo, as cantadas de rua, o espírito da desídia nos arrebata quanto a louça que se acumula na pia, ou o chão que só falta criar vida e implorar pra ser varrido. Nos tempos de hoje, ainda tenho um álibi, pois a minha mão direita não tem firmeza pra quase nada (por conta do acidente), mas e quando as coisas se normalizarem???


Poderia citar muitos outros exemplos particulares de vezes em que fomos reprimidos por conta de fugirmos dos papéis que a sociedade  acredita que o homem deve exercer, e de quanto isto foi maléfico para o nosso desenvolvimento intelectual, emocional e moral. Mas certamente isto não chega a ser uma infinitesimal fração de tudo que uma mulher tem que passar diariamente nesta e em outras sociedades apenas pelo fato de ter nascido como tal. Eu ainda gostaria de me prolongar mais sobre o assunto, mas já estou há tempo demais escrevendo sobre ele. Os prolegômenos, então, ficam para outras postagens...


Termino então com estes vídeos, que são parte de uma campanha de combate ao machismo promovida pelo governo do Equador. Quando este país promulgou sua nova Constituição, no ano de 2008, adotou-se o combate ao machismo como política de Estado. Além desta campanha, muitas outras medidas foram tomadas neste sentido pelo governo desta nação, que se tornou uma das nações pioneiras em assumir declaradamente uma posição neste sentido (a primazia cabe à Burkina Faso revolucionária de Thomas Sankara nos anos 80, é sempre bom lembrar!). Se o Equador, que não chega a ser um país miserável mas está bem longe de ser um país rico (não está mesmo entre as 60 maiores economias do mundo, e seu índice de desenvolvimento humano não está nem entre os 100 primeiros da lista - se não me engano não está até entre os países com índice de desenvolvimento humano considerado "alto") pôde se dedicar a estas iniciativas, porque o nosso Brasil, que está muito à frente do Equador em termos de desenvolvimento econômico e social, não pode sequer pensar em fazer o mesmo???

Reflitam, meus irmãos! 

 

 
 

 
 

 
 

 
 


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Chitãozinho e Xororó - A Força Jovem da Música Sertaneja (vol. II) - 1977


01. Querida; 02. Para sempre comigo; 03. O homem do campo; 04. Amor da minha vida; 05. Caminhando pela vida; 06. O comício terminou; 07. A flor da noite; 08. O pobre e a rosa; 09. Aquelas águas serenas; 10. Adeus amor; 11. O tempo trouxe a saudade; 12. Sozinho na estrada.


Saudações a todos! Depois de um longo período de tempo sem escrever aqui para o blog, onde estive entulhado de trabalho e onde sofri um acidente que me deixou incapacitado por algum tempo, vamos mais uma vez com uma breve resenha, pra ver se eu acalmo um pouco da obsessão musical que me aflige neste momento (caso vocês não saibam, por vezes algumas músicas e alguns artistas se fixam de tal forma em meu cérebro que em não consigo parar de pensar neles, e isso por vezes dura vários dias).


E justamente agora, quando volto a escrever esta resenha vários dias depois de tê-la iniciado, a obsessão em questão se concentra na obra de Chitãozinho e Xororó, que teve uma peculiaridade: dos cerca de quarenta álbuns que eles lançaram ao longo de 43 anos de carreira (eles cantam profissionalmente desde o começo da adolescência e já estão beirando os 60 anos de vida) os cinco primeiros não fizeram sucesso algum, e juntos não chegaram a 50 mil cópias vendidas (Ou seja, praticamente foi só para a divulgação em rádios e para um ou outro aficionado da música sertaneja). Se eu não estou enganado, neste período eles não viveram exclusivamente da música, trabalhando como feirantes na capital paulista.Se bem que o estilo deles só se firmou a partir do quarto álbum, quando finalmente a voz deles alcançou o timbre da idade adulta...


No álbum seguinte a este que eu resenho, finalmente tiveram o primeiro sucesso da carreira, com a música "60 Dias Apaixonado", e já chegaram as 100 mil cópias. Dobraram a conta no álbum seguinte, com o single "Amante Amada", e chegaram ao primeiro milhão de cópias em seu oitavo álbum (marca que bateram outras 10 vezes), "Somos Apaixonados", com os singles "Fio de Cabelo" e "Obras do Poeta". Isto é, camelaram bastante (12 anos de carreira, mais precisamente) para chegar ao estrelato, e abriram caminho para um novo refluxo da música sertaneja, que voltava as paradas de sucesso (melhor dizendo, voltava a ser um filão da indústria fonográfica), muito embora este retorno tenha implicado um pouco de abandono do estilo conhecido como "de raiz" para uma abordagem mais popular...


E nós percebemos que a dupla foi chegando ao sucesso conforme foi se aproximando deste novo estilo... Dito isto, o que chama a atenção é que este disco marca a consolidação do estilo de cantar dos dois, quando a voz do Xororó, primeira voz da dupla, fica madura (na época ele estava com 20 anos), demonstrando que ele já teve um alcance vocal incrível, que acabou perdendo com o passar dos anos... Eu fico até pensando se eles chegaram a renegar esta "obra imatura", como vários outros artistas fizeram (aparentemente não, porque todos os seus discos desta época foram reeditados em cd), pois não vemos eles se reportando a ela... Mas o que importa é que estamos diante de um bom disco, que aliás é um dos melhores do gênero que eu já pude ouvir....


Para ouvir a faixa 10, "Adeus amor", basta clicar no vídeo aí embaixo:


 

domingo, 24 de março de 2013

No pior dos dias, ou sobre o ideal que não morre

Eis o elenco desse ano (mais tarde ainda chegaram outros jogadores, como o Tuta), apontado por muitos como a pior equipe que já defendeu as cores grená e branco...



Eis o elenco com o qual conquistamos a Taça de Prata (atual Série B do Brasileiro) em 1983. Sim, seus futebolistas de Playstation, o Juventus da Mooca já foi campeão brasileiro um dia!



Este sábado, dia 23 de março de 2013, foi o pior dia da história do Clube Atlético Juventus. Ao perder em casa por 3 a 1 para o Guaratinguetá, a equipe foi rebaixada para a terceira divisão do Campeonato Paulista, pela segunda vez em sua história. Depois de ter conquistado de forma heróica a volta para a segunda divisão  do Paulista no ano passado, a diretoria do clube fez um péssimo planejamento: tivemos quatro técnicos diferentes no decorrer deste ano, dois dos quais não ficaram mais do que três jogos comandando a equipe; além disso, apostamos na contratação do Tuta (sim, aquele mesmo que jogou no Palmeiras e no Fluminense), que no alto dos seus 40 anos revelou-se um peso morto na equipe.


E, o pior de tudo, ao invés de tratarmos de arranjar jogadores que pudessem efetivamente integrar a equipe, ficamos ventilando a hipótese da construção de um novo estádio, a "Arena Juventus", cousa das mais tresloucadas: não há espaço disponível para ampliarmos nosso atual estádio, que está espremido entre a Rua Javari, a Rua dos Trilhos e as casas dos "nonnos", ainda mais em um lugar que está altamente valorizado pela especulação imobíliária; como não temos recursos próprios pra uma empreitada desse porte, teríamos que recorrer a algum investidor, o que praticamente obrigaria o arrendar-se a agremiação por vários anos para os mesmos; que lucro teríamos em construir uma "arena" para 20 mil pessoas para um time que com muito esforço junta 2 mil pessoas num jogo importante, e mal junta 500 nos jogos "normais"??? O que se alega é que nosso atual estádio não oferece condições para recebermos os grandes clubes e nem para se fazerem partidas noturnas, por não haverem refletores.


Bastaria fazer como sempre fizemos: jogamos contra os grandes no Pacaembu e damos um jeito de instalar os refletores no nosso estádio, mas a Federação Paulista está criando exigências para que os clubes adequem seus estádios aos "padrões internacionais" de conforto e segurança, exigências essas que a maioria dos clubes não possui condições financeiras de cumprir... E esse é precisamente o mal do Juventus e de outros tantos times: não há mais espaço no futebol para eles. Tudo por causa da mentalidade dos que acham que para o nosso futebol voltar aos dias de glória (já tem um tempinho que estamos longe de ser os "reis do futebol"), devemos imitar com fidelidade canina o que é feito no futebol dos principais países europeus. Sobretudo no que toca à qualidade técnica dos times, onde em cada campeonato nacional o título é realmente disputado por no máximo quatro equipes, e as demais só aparecem pra servir de sparring a esses quatro times, pra deixar as fotos e demais imagens mais diversificadas e pra dar a ilusão de que a disputa é democrática. No nosso caso, a mídia tenta nos mostrar como o último bastião do futebol romântico (coisa que, se formos ver, realmente somos, mas não somos os únicos a ter esta honra), mas o faz deixando bem claro que este é o nosso lugar, do qual não devemos sequer pretender sair. Não se cogita que um dia voltemos a ter um lugar ao sol ao lado das grandes equipes, ou que possamos voltar a disputar campeonatos de ponta.


Em outra ocasião, eu já havia falado neste blog (mais precisamente aqui) sobre a minha paixão pelo E.C. XV de Novembro de Jaú. Pois bem, esta paixão ainda continua, mas desde que eu escrevi aquelas linhas muita coisa mudou. A situação deste time se depauperou consideravelmente; caímos para a quarta e última divisão do Campeonato Paulista, e estamos afogados em inúmeras dívidas, que dilapidaram consideravelmente o patrimônio do clube. Uma nova diretoria assumiu o clube e, ao que parece, demonstrou seriamente a intenção de tirar a agremiação deste mar de lama. Nesse interim, por influência de alguns amigos da universidade, acabei conhecendo melhor o time do Juventus. Quando dei por mim, já estava berrando loucamente sob uma bruta chuva enquanto comemorava o gol de empate do Moleque Travesso (apelido carinhoso da equipe juventina) contra um time de empresários qualquer; a paixão já havia me tomado por inteiro.


Tive alguns momentos de dilema, principalmente em uma tarde de fevereiro do ano passado, quando eu e mais 456 pessoas fomos ver o Juventus jogar contra o XV de Jaú na Rua Javari, em partida válida pela terceira divisão do Paulista. Nunca me senti tão dividido em toda a minha vida: enquanto comemorava os gols do Juventus (que venceu este jogo por 2 a 0), me sentia entristecido por ver o Galo da Comarca (apelido carinhoso do XV de Jaú) praticamente entregue às baratas em campo. Ainda tive alegrias tremendas, como a que senti quando o Juve finalmente conseguiu o tão sonhado acesso (que pena que este ano tudo foi posto a perder), ou quando quase derrubei dois sujeitos de uma altura de cerca de quatro metros, ao subirmos no alambrado do Setor 2 pra comemorar o gol de virada do Juve contra o São Bento, na estréia da Copa Paulista do ano passado... E as vezes em que pisei na Javari, acompanhado dos fiéis amigos que me apresentaram ao time??? 


E eis que aparecem os cachorrinhos de polícia deste estado de coisas em grande parte sustentado pela mídia pra dizer que toda estas alegrias não têm o menor valor. Que "devemos nos adequar aos tempos modernos". Que o futebol deve se tornar um esporte asséptico, calculista, metódico e abúlico. Que antes de ser um esporte, o futebol seja um negócio rendoso. E que, antes de mais nada, nos dê a ilusão de que é democrático e igualitário, onde todos têm chances iguais de se darem bem, e os que porventura fracassam é porque "não tiveram competência suficiente".


Para os que pensam assim, para os que desejam que a emoção do futebol se extingua por completo, para os que do conforto de suas arenas e de suas salas arejadas com TVs de plasma jamais souberam o que é realmente torcer para um clube, se empapando na chuva, sofrendo queimaduras do sol, e nem sempre (muitas vezes quase nunca) vendo bons resultados ou títulos, eu digo o seguinte: o Juventus, o XV de Jaú e vários outros times ainda estão na ativa, sobrevivendo como podem e como não podem, contra tudo e todos, porque são muito mais do que apenas clubes de futebol. Eles representam um Ideal. Jogadores, dirigentes e torcedores (até mesmo este que vos fala) vão partir um dia; ninguém vai ficar pra semente. Mas um Ideal, meus caros, nunca morre. Só morre quando não houver mais quem se disponha a sustentá-lo. E isso os amantes do que certo jornalista chama de "times de verdade" têm de sobra: disposição pra manter este Ideal vivo. Isso pode parecer muito piegas, mas de que vale a vida se ela não estiver minimamente calcada em uma paixão, em um Ideal a ser seguido ou alcançado??? Reflitam nisto!

domingo, 17 de março de 2013

"Sexualidade feminina: sempre escorreu pelas beiras da sociedade"



Saudações a todos! Antes que, finalmente, me venha a inspiração para escrever de próprio punho alguma coisa sobre o feminismo, vou por ora compartilhando textos de outras pessoas, coisa que não fiz por muitas vezes (com esta, será a quinta) por aqui. E, mais uma vez, vou compartilhar (com o devido consentimento) com vocês que ainda visitam este blog mais um texto de Mariana, uma das que citei em minha última postagem. E que, acredito, seja um texto bastante adequado pra iniciarmos algumas reflexões sobre o assunto:


“Ao longo da história, as mulheres foram invisibilizadas pela sociedade, sempre se deixando atribuir por papéis domésticos sem impacto político, social, ou cultural”


Não existe uma falácia tão complicada quanto essa; ela está presente até em livros de grande circulação que abordam o tema feminismo com seriedade, entretanto com esse descaso histórico no mínimo catastrófico. Essa colocação de invisibilidade social praticamente só cabe à mulher quando, na antiguidade, a história perpassa pelos patrícios, pelos plebeus, pelos escravos, e a mulher ainda é ressaltada por muitos como invisível, sendo que dos citados, apenas os patrícios eram verdadeiramente ativos na política.


A invisibilidade dos homens que não participavam da política é ressaltada por figuras como Platão, Sócrates, etc., uma pequena minoria que dá uma falsa ideia de liberdade para todos os homens; existiam homens invisíveis também. Sociedades bárbaras costumavam dar os atributos da guerra as mulheres, enquanto aos homens cabia a tarefa doméstica.


E mesmo diante da ideia de uma mulher caseira, embora lutemos por expressão social, é no mínimo preconceituoso imaginar que essa mulher não é ninguém na sociedade, é novamente menosprezar o papel de intensidade da mãe, por exemplo; que pode não estar engajada nas causas políticas, mas está passando toda a moral, valores sociais, etc., em idades incisivas, além da mulher ter ficado como a oradora, a que ensina a língua a criança, e faz dessa herança cultural importantíssima ser levada adiante, por essa razão que geralmente as mulheres tendem a ter uma oratória mais persuasiva.


O problema está para quando afirmamos que o correto é ser apenas a mulher da casa, ou apenas a mulher política, a liberdade feminina é sufocada, o individualismo feminino é sufocado, e todas têm que ser iguais. Vemos muitas brechas históricas onde um nome de um homem é ressaltado diante de uma multidão enfurecida que causou o verdadeiro impacto social. O que seria do mundo das ideias sem as atitudes? Não adiantaria muita coisa, visto que ambos, como diria Sócrates, precisam estar conectados.


Por que somente as ideias masculinas são repassadas? Ainda se tem uma ideia de superioridade, mesmo que disfarçada; na Revolução Francesa aprendemos as ideias de Jean Jacques Rousseau, e mal sabemos que existem mulheres tão engajadas na política quanto o próprio, principalmente em reivindicar direitos a mulher. Mulheres como Marie-Henriette Xaintrailles, que enfrentaram os próprios revolucionários, que apesar da sede de mudança, ainda estavam com os pensamentos permeados no conservadorismo.


Isso sem contar que a maioria das pessoas que participaram de momentos clássicos da revolução como a queda da Bastilha, e da própria guerrilha, foram mulheres. Mulheres do comércio, mulheres da casa, mulheres como qualquer outra, que de ‘sexo frágil’ não demonstravam nada, pelo contrário, chegavam a ser tão robustas quanto os próprios homens da revolução. 


Essas mesmas eram chamadas de ‘mal amadas’, como se a função do sexo feminino fosse simplesmente ser amada. E nesse ponto que Simone de Beauvoir comenta que a mulher não nasceu para agradar ao outro, ela é radicalmente educada, mesmo que ela sinta uma eterna frustração nisso tudo, mesmo que a maioria das mulheres no fundo sintam ojeriza da ideia de casamento, da ideia de parto, de tudo que consideram "o sonho das mulheres" nas utópicas novelas, de tudo isso que é sinônimo de sufocamento individual em definitivo.


Quando a mulher perde a função do seu corpo, dos seus órgãos, de que para uma criança, uma menina, as pernas são para andar, e após ela começar à puberdade a sociedade introduz a ideia de que as pernas são para se observar, todo o corpo feminino não passa de uma vitrine social. Parece que seu corpo como disse Simone, escapa de si.


Escapa tanto, que começa a ser objeto, objeto de observação, de vigilância social, de moralidade, de status. Não importa o quanto está inteligente, coerente, engajada, penetrada, tem que estar bela, tem que fascinar apenas pelo superficial; o que seria a beleza feminina, nada além dessa superfície da carne. 


Umberto Eco faz várias divagações sobre o que é belo, e entre essas divagações fica bem claro que o belo não é apenas uma questão estética, está muito além disso, mas no caso das mulheres parece ser a única coisa que se importa e que se espera. Não precisamos ir longe à tempos históricos, a Dilma Rousseff é julgada pela cor que estava vestindo na ocasião, e não pelas palavras, pela inteligência.


Embora isso seja instrumento de fascínio, no xeque mate parece não valer muita coisa. Parece até sinônimo de coisa ruim, aquela coisa medieval de que a mulher boa é a submissa, a santa. E ainda me choco, quando vejo notícias como a da Professora de Letras de São Carlos, sendo assassinada por não corresponder o aluno. Mulher, ainda sendo vista como propriedade, como simples animal de reprodução, não como cidadã, como ser humano.


É a situação do objeto e da posse, a mulher se torna mulher para posse, e se você não for "minha", não será de ninguém, pois seu corpo a mim pertence, e nunca a você. Essa é a ideia que mata, e quem finge que não, sabe que está sendo um tanto hipócrita. Crimes passionais em geral têm mulheres como vítima, é a grande maioria massacrante das vítimas, pois não é puramente uma questão individual de um distúrbio, e sim uma questão social toda criada. É a mesma sociedade que se choca, mas que diz: “Mulher que traí merece morrer”.


E esse crime passional, de matar "por amor", faz pouquíssimo tempo que deixou de ser crime, na verdade ainda tem gente que acredita que mata por amor. Não, não matam por amor, matam por machismo. Matam porque pensam que a mulher não é digna de viver se não for como "minha".


Quem ama não mata.


Não adianta à mulher sair da sua casa, ser uma profissional, dominar a academia, as universidades, etc., sendo que ela ainda é vista como uma propriedade a ser adquirida. Sendo que ela ainda é vista só como instrumento sexual, e não com o respeito pelas suas atitudes, pelo seu profissionalismo. É preciso ser radical, pois, como podem ver, a sociedade não pega leve com as mulheres, o feminismo é necessário. E desconstruir essa imagem de que a mulher foi apenas uma expectadora da história também é mais do que necessário.


Mary Del Priore, uma das mais fantásticas historiadoras brasileiras, comenta sobre sexualidade feminina desde os tempos de Colônia, sobre como ela jorra pelos cantos, como ela se desvia das demandas sociais. Sobre como, por exemplo, dentro do convento, existiam relações sexuais mais liberais do que fora do mesmo, pois a "militância" era menor. Dentro do convento, imagina na sociedade? Nunca conseguiram "domesticar" a mulher, mesmo com livros ditos "sagrados" a sexualidade feminina sempre foge a regra. Mesmo que a regra não mostre isso.


Muitas mulheres se sentiam livres lá, não eram santas. Como as amigas se envolviam sexualmente nas tardes inteiras dentro dos quartos, e ninguém desconfiava pelo fato de acreditarem que o prazer sexual feminino está ligado a penetração apenas. Como as chamadas ‘bruxas’ acreditavam na magia e na força feminina que ia além do esperado, além das demandas sociais; era uma forma de pensar independência a partir de uma identidade dogmática, sim, mas ainda sim era uma forma de se reafirmar com autonomia e tirar um pouco do sufocamento social.


A mulher sempre utilizou de artimanhas para sair pelas beiras, para sua sexualidade não ser sufocada; a diferença é que nenhum tempo é igual o outro, não é possível comparar as necessidades sociais da mulher medieval com a contemporânea, mal podemos comparar as próprias no campo sexual.


Pensar sobre a mulher é pensar sobre a liberdade de ser a mulher, não somente nas mulheres em geral; se você pensar sempre no plural pode cair naquele engano de, por exemplo, o fato de você nunca abortar ser sinônimo de proibir todas as demais do mesmo. Isso não é uma busca pela liberdade, é outra forma de opressão.


E ainda existem pessoas que acham que o feminismo é desnecessário. Curiosamente, todos os maiores intelectuais da área das humanas que não tenham se vendido demais por aí, são todos a favor do feminismo.


A intelectualidade diz: feminismo é sociedade justa, sociedade contra diferenciação de gênero.

domingo, 10 de março de 2013

No Dia Internacional da Mulher, três exemplos para lembrarmos que esta data é de luta!

Saudações a todos! Há muito eu estava pensando em fazer um post sobre a temática feminista, e não atinava com a melhor forma de fazê-lo. Mas, durante esta semana que se acabou, eis que encontro na linha do tempo de meu face três exemplos vindos de três mulheres que eu sigo ali. 


Duas delas foram minhas colegas de turma na Universidade Federal de São Paulo, e a terceira é uma pessoa que conheci por acaso nas minhas andanças pela web, e com a qual ainda mantenho uma ativa correspondência virtual (já compartilhei coisas dela aqui nesse blog). Durante um bom tempo, sempre pensei que o feminismo fosse uma questão menor, de interesse restrito às mulheres e que nós, homens, pouco tínhamos a ganhar com isso.


Mas, com o passar do tempo, e sobretudo por causa dos debates que tive com a última das pessoas que citei, fui ver que estava completamente enganado, principalmente por duas razões que citarei agora: a) apesar de estarmos já no século XXI, a mulher ainda é colocada numa relação de total, ou quase total, subordinação em relação ao homem. Em todos os cantos do mundo, na maior parte das sociedades humanas e em todas as classes sociais, seu comportamento, sua forma de vestir e sua vida ainda estão sob a avaliação e o crivo do homem, e ela é vítima desta e outras violências oriundas deste controle. E o feminismo luta para erradicar todas estas injustiças; b) Ao contrário do que pensamos, o feminismo também diz respeito sim ao homem; pode parecer que não, mas ele também se encontra aprisionado dentro de papéis que ele se vê obrigado a exercer: em todos os instantes de sua vida, ele é coagido a se comportar de forma "viril", a entender a mulher como estando a seu serviço e lhe é vedado ter qualquer comportamento não considerado como "masculino". Como chorar, por exemplo...


Eu mesmo desenvolvi um bloqueio sério quanto a isto; apesar de eu ser emotivo e de sentir vontade de chorar até com final de blockbuster mela-cueca, há muitos anos que não consigo chorar genuinamente com nada. Se sinto vontade de fazê-lo, instintivamente eu reprimo esta vontade, e sinto que isso não me faz bem e que eu gostaria muito de poder chorar em certas situações para poder aliviar aquilo que no momento está me oprimindo. Poderia ainda falar mais sobre o feminismo e o quanto ele é necessário nos dias de hoje, mas deixarei isto para outra ocasião. Por ora, fiquemos com os exemplos dados por três mulheres de luta: Maria Fernanda, Mariane e Mariana (os compartilhamentos seguem esta ordem). O primeiro é de uma foto tirada na manifestação paulistana da Marcha Mundial das Mulheres, e as outros dois são textos que as citadas escreveram em seu face.


E mais: digo, sem medo de errar, que o marido da primeira e os namorados das demais são homens especialmente abençoados pelas forças sagradas de Umbanda em ser companheiros destas mulheres guerreiras, que sem dúvida trazem consigo o axé de Iansã e de todas as pomba-giras (apesar de as três serem atéias - da segunda não tenho bem certeza), as mais belas, guerreiras e insubmissas entre todas as divindades! Que um dia estas mesmas forças e divindades que citei me dêem a honra (se dela eu for merecedor) de ter nos meus caminhos e na minha vida uma mulher assim! E vamos ao que interessa! (publico sem licença das três, mas creio que irão me perdoar por isso!)


A foto que citei:




O texto de Mariane:

"Não quero pagar menos que um homem para entrar em um bar. Quero dividir sempre a conta em um restaurante com o meu namorado. Quero dar uma boneca para o meu filho brincar de ser papai, assim como as meninas brincam de ser mamãe. Quero que o tempo da licença paternidade seja igual ao da maternidade. Quero que o homem possa chorar quando tiver vontade. Quero que meus alunos não assobiem na sala quando uma menina entrar para dar um aviso. Quero usar um decote e uma saia curta no trem sem me sentir assediada/desrespeitada. Quero que meus sobrinhos e primos estejam mais acostumados com meninos de mãos dadas do que com armas na cintura. Quero que haja fraldário no sanitário masculino. Quero que meu filho possa usar saia e roupa rosa se tiver vontade sem sofrer discriminação. Quero que filhas possam dormir no quarto com os namorados assim como os filhos dormem com as namoradas. Quero que não haja risadas quando o assunto se tratar de um estupro. Quero que os homens possam se cumprimentar com um beijo no rosto sem se sentirem reprimidos. Quero que as mulheres possam ficar e se relacionar com quem quiserem, quantas vezes quiserem, sem ter que ouvir que elas "não são pra casar". Quero que os homens lavem a louça sem achar que estão AJUDANDO, mas conscientes de que são responsáveis por suas tarefas. Quero que os maridos não achem que é obrigação das esposas trazerem o prato pronto na mesa. Quero que as mães solteiras possam namorar sem sofrer discriminação. Quero que vassourinhas e panelinhas não sejam brinquedos exclusivos de meninas. Quero que meus amigos transcendam o "não sou homofóbico" e, também, não se incomodem se seus filhos forem gays. Quero um mundo onde o racismo, a homofobia, o machismo, o sexismo, o preconceito, a gordofobia, a misoginia não sejam tratados como se não existissem, mas que sejam enfrentados diariamente porque, ainda, constituem regra e não exceção" 


E, por fim, o texto de Mariana:

"Dia das mulheres hoje. E o que tenho a dizer?
Muito, muito mesmo, pois sou.
"Não se nasce mulher, torna-se" já diria Simone Beauvoir, justamente por não termos uma 'função natural', muito menos um cérebro 'de mulher', temos a sexualidade feminina, apenas, não temos limites.


Esse dia foi criado pela esquerda, a mesma que dizia que não existe uma grande mulher por trás de um grande homem, e sim, ao lado, a mulher que luta está ao lado, sendo representada por si mesma, e não ao lado no quesito de heterossexualidade, ao lado no quesito de igualdade.


Igualdade de gêneros, esse foi o objetivo desse dia, as mulheres cumpriam exatamente a mesma função dos homens e recebiam menos, menos por quê? As intelectuais femininas se mostraram capazes igualmente, tanto é, que a Simone se mostrou capaz até de derrubar uma teoria que é um mito, a teoria de Freud que a mulher inveja o genital masculino.


E não é um dia para ressaltar e fazer nenhuma mulher ser 'princesa', nem mais que ninguém, é um dia de reflexão. Não existem limites sexuais, existem apenas preconceitos, não existe 'natureza feminina' e 'pensamento feminino', existe apenas imposição social.


As mulheres que tem admiração pela 'roupa' da outra, pela imagem que passa, e não admiram a personalidade das outras mulheres por quê? Pior, se sente enojadas com a imagem da nudez feminina, o que no fundo é uma vergonha do próprio corpo sendo projetada nas demais. Admita-se, e tenha orgulho do seu corpo, saia dos estereótipos, seja você. Você não é 'as mulheres', você é a mulher.


E isso não te faz mais, nem menos, te faz apenas você ser você mesma. Não precisa sorrir, não precisa agradar, você não nasceu para agradar, você nasceu para lutar, ser mulher, tornar-se"