sexta-feira, 22 de junho de 2012

Manifesto de um homem só (repostagem)


"Para criar inimigos não é preciso declarar guerra, basta dizer o que pensa" - Martin Luther King


“A ânsia de salvar o mundo é, ordinariamente, um vil disfarce para a ânsia de governá-lo" - Autor desconhecido


“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo o que não presta” – Nelson Rodrigues


Saudações a todos! Como já deve ser do conhecimento dos leitores, os alunos da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo se encontram há cerca de 90 dias em greve, paralisando quase que totalmente as atividades acadêmicas, com exceção dos programas de estágio supervisionado dos cursos e das atividades da pós-graduação (que, por várias razões, não podem em absoluto paralisar suas atividades). O motivo alegado para esta paralisação foi a falta de infra-estrutura adequada para o funcionamento do campus, sobretudo no que concerne a falta de salas de aula para abrigar os estudantes (alguns cursos tiveram que ser alocados em um centro educacional da prefeitura vizinho ao campus, enquanto o novo prédio que deveria abrigar novas salas de aula está com sua construção paralisada há mais de um ano), as péssimas condições físicas e sanitárias do galpão que hoje abriga o restaurante universitário, a falta de espaço da biblioteca para acondicionar os livros que recebe tanto de compra como de doação (existem cerca de 40 mil livros mal acondicionados em caixas, indisponíveis para consulta por falta de espaço na biblioteca), as deficiências na provisão de linhas de ônibus que atendam a região do campus, uma vez que a maior parte dos alunos não vive na cidade de Guarulhos (e por esse mesmo motivo, se reivindica também a construção de moradias estudantis para atender os estudantes de baixa renda que vivam fora de Guarulhos, mais notadamente os que vieram do interior e até de outros estados), bem como a retirada de processos administrativos e judiciais que estão correndo contra alguns estudantes que participaram de uma ocupação da reitoria no ano de 2008 e que também correm por conta de alguns acontecimentos desta greve.


Pois bem, em que pese a urgência desta pauta e o seu peso para que a EFLCH possa cumprir a contento as suas atividades-fim (e nestes dias temos visto um cenário de greves em quase todas as federais - de alunos, professores e funcionários; muito embora as reivindicações dos três setores sejam diferentes, elas de certa forma são complementares por retratarem a precariedade da expansão do ensino público superior federal levada a cabo desde o governo Lula), o que tem acontecido nestes 90 dias mostra que não avançamos um centímetro sequer na garantia (pelo menos) da solução de nossos problemas. Muito pelo contrário, o que se criou foi um clima de extrema animosidade (no qual ocorreram agressões verbais e físicas) entre os alunos, entre estes e os professores, entre os alunos e a direção do campus e entre os alunos e a reitoria da universidade, o que travou completamente quaisquer possibilidades de mediação entre os sujeitos envolvidos na situação.


Desde o princípio da greve dos alunos, um pequeno grupo destes (auto-intitulado e conhecido como "comando de greve") tomou a testa do movimento, e não só relegou a pauta de reivindicações a um segundo plano como conseguiu instalar no campus um verdadeiro estado de sítio, com ares de Revolução Cultural chinesa (se você não sabe o que foi tal revolução, aqui está um link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Cultural), afastando do movimento quem não concordasse com sua linha de pensamento (o que certamente afastou e/ou impediu muitas contribuições positivas a ele), buscando apoio e legitimidade para o movimento em meios externos ao invés de fortalecer a base e usando de todos os meios para desqualificar posicionamentos contrários ou tomar o movimento para os partidos e/ou movimentos políticos de que fazem parte, e com os dois lados lançando mão de ofensas físicas e verbais (algumas das quais racistas, xenofóbicas e homofóbicas inclusive).


E o campus foi ocupado por este movimento duas vezes: na primeira, a ocupação durou seis dias e terminou sob a ameaça de uma reintegração de posse, e na segunda vez, depois de o campus ser inteiramente ocupado e aberto com atividades para a comunidade (e de a justiça ter inicialmente negado uma nova reintegração de posse, sob a alegação de que a universidade nada fez para sanar seus conflitos), houve uma nova reintegração de posse com a entrada do Choque e de agentes da Polícia Federal no campus.


No dia 14 último, depois de terminada uma assembléia entre alunos de toda a universidade (que por ser realizada a tarde, contou com uma fraca participação de alunos; eu estive ali e fiz um pronunciamento), a polícia foi chamada com o pretexto de conter uma manifestação violenta dentro do campus e levaram presos para a sede da Polícia Federal em São Paulo 26 estudantes que estavam ali naquele momento, e que ali ficaram detidos até a madrugada do dia 15 para o dia 16 deste mês, sendo libertados graças ao esforço de alguns advogados de partidos políticos e de movimentos sociais; entretanto, todos responderão a processos judiciais e administrativos da universidade. Como eu creio que os leitores já devem saber pelo dito popular, escola e cadeia são as moradas da verdade, e é difícil para quem não estava lá no momento precisar exatamente o que aconteceu; os alunos dizem que a confusão realmente começou após um policial ter abordado uma menina de maneira violenta , e os professores (os que estavam na diretoria acadêmica do campus na ocasião) dizem que os alunos estavam acuando os professores dentro do citado recinto, inclusive com depredação do campus. O certo é que os ânimos estão extremamente exaltados, o campus se encontra de portas fechadas e, no presente momento, as possibilidades de negociação entre as partes envolvidas infelizmente são quase nulas...


Pois bem, a pauta de reivindicações pela qual se entrou e pela qual, em teoria, permanecemos até o presente momento em greve - que eu expus acima em seus pontos mais importantes, eu creio!- como os leitores podem notar, não contém nenhuma exigência absurda, apenas o mínimo do mínimo para que o campus possa cumprir com suas funções a contento... Isto posto, perguntamos o que nos tem incomodado tanto nestes últimos dias, bem como pudermos ter perdido tanto tempo (em 90 dias dá para se fazer muita coisa!) em picuinhas menores...


O ponto que mais me incomoda nisso tudo é o clima de estado de exceção (que eu já expus acima) que se instaurou entre os sujeitos envolvidos nesta confusão. A intransigência de todas as partes (eu acho - minto, eu tenho certeza - que foi infinitamente maior por parte do chamado "comando de greve", mas mostrou sua cara em todos os lados) fez com que a esmagadora maioria dos alunos se abstivesse de maneira passiva de todos os acontecimentos relativos a esta greve (afinal, há pessoas contrárias a greve, e isto não é nenhum crime de lesa-pátria, meus senhores; são, como nós, cidadãos ativos e maiores de idade e que como tal têm o inalienável direito de considerar o que é ou não bom para as suas pessoas), justamente por não se sentirem representados pelo sobredito comando; no nosso entender, isso foi o maior entrave a uma possível vitória de nossa greve...


Pois reflitam comigo, meus caros: para todos nós não foi fácil ingressar na universidade; tivemos que passar por um processo seletivo dificílimo e altamente excludente, para o qual nos preparamos por alguns meses, consumindo tempo, dinheiro e, sobretudo, horas de lazer e convívio social que jamais obteremos de volta; é igualmente difícil para todos se manterem na universidade, uma vez que o campus que frequentamos está localizado em um bairro periférico de difícil acesso com inúmeras deficiências em sua infraestrutura básica; o gasto de dinheiro, apesar de a universidade ser pública, é bastante grande - transporte, alimentação, gastos com idas a eventos, com livros e, sobretudo, com xerocópias de trechos destes mesmos livros - e as exigências de desempenho acadêmico de todos os cursos tem o mesmo grau de dificuldade e de aspereza para todos os alunos; ao contrário do que muitos pensam, não é, nunca foi e nunca será fácil para ninguém estudar em uma universidade pública (que como todos podem notar - e os últimos acontecimentos não nos deixam mentir - está a anos-luz, talvez a séculos-luz, longe de ser o paraíso que o governo, nossos pais e principalmente os professores de cursinho nos prometeram)...


Portanto, não há o menor cabimento que os alunos sejam considerados como mais ou menos dignos de frequentar os bancos universitários apenas por suas posições pessoais sobre os últimos acontecimentos (e é, infelizmente, o que tem acontecido), ou que sejam por isso tachados de vagabundos, maconheiros, bandidos, vândalos reacionários, fascistas, burocratas escolásticos acadêmicos prático-utilitários (???), machistas, ou qualquer epíteto que mentes fechadas que só sabem pensar em 0 e 1 (que, como qualquer pessoa sensata já deve ter notado, estão sempre acompanhadas de uma boca aberta e de uma língua ferina que não cabe dentro dessa boca) possuam a originalidade suficiente para inventar; há, é claro, alunos interessados e desinteressados, esforçados e relapsos, mas TODOS são alunos, com os mesmos direitos e deveres, e sem distinção de espécie alguma, fui bem claro???


Outra coisa que me incomoda bastante nisso tudo é, só pelo fato de sermos estudantes de humanas, esta e outras lutas serem postas para nós como uma obrigação moral, como o "fardo do homem branco", como se nada mais tivéssemos a fazer neste mundo além de lutar pelas mais diversas causas sociais. Porra, entendam o seguinte: se vamos lutar por algo, é ou para nos livrar do fardo que nos oprime ou pelo menos para torná-lo mais suportável de ser carregado, e não para que a nossa luta seja mais um fardo a suportar! Não será precisamente por causa disso que tem sido cada vez mais difícil agregar pessoas para apoiar causas urgentes e necessárias??? Não será por causa de tal visão que os mais diversos movimentos sociais e partidos de esquerda têm sido desqualificados em suas causas e ações e até vistos como criminosos??? Por causa desse fastidioso dever que faz parecer que nós não temos emprego, família a sustentar (e muitas vezes, filhos para criar), amigos, vida social, que temos que ficar sem comer, sem dormir, sem tomar banho, sem transar, tudo para dedicarmos o máximo de tempo a causa??? Reflitam nisto, meus senhores...


Eu gostaria ainda de tratar de muitos outros aspectos que considero importantes (como a entrada de forcas policiais em nosso campus, triste retrato do despreparo dessas mesmas forças e da impropriedade de sua presença ostensiva dentro de um espaço escolar), mas acredito que o que escrevi até agora já resumiu tudo o que eu tinha vontade de dizer sobre este assunto, e que não achava tempo nem espaço para dizer... Não tenho a pretensão de tomar a cabeça do movimento grevista ou de ser o mais novo "salvador da roça"... E para terminar, eu vou botar aqui um poema de Agostinho Neto, que além de poeta pegou em armas pela independência de Angola, e foi o primeiro presidente deste país... E que, além de dizer muito sobre o momento que vivemos na universidade, é um eloquente convite a reflexão de nossos rumos...


"Do povo buscamos a força"

Não basta que seja pura e justa a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós

Dos que vieram
e conosco se aliaram
muitos traziam sombras no olhar
intenções estranhas

Para alguns deles a razão da luta
era só ódio:
um ódio antigo
centrado e surdo
como uma lança

Para alguns outros era uma bolsa
bolsa vazia (queriam enchê-la)
queriam enchê-la com coisas sujas
inconfessáveis

Outros viemos
Lutar para nós é ver aquilo
que o Povo quer
realizado
É ter a terra onde nascemos
É sermos livres para trabalhar
É ter para nós o que criamos
Lutar para nós é um destino -
é uma ponte entre a descrença
e a certeza de um mundo novo

Na mesma barca nos encontramos
Todos concordam - vamos lutar

Lutar para que?
Para dar vazão ao ódio antigo?
ou para ganharmos a liberdade
e ter para nós o que criamos?

Na mesma barca nos encontramos
Quem há de ser o timoneiro?
Ah as tramas que eles teceram!
Ah as lutas que aí travamos!

Mantivemo-nos firmes: no povo
buscáramos a força
e a razão

Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
vencemos
O Povo tomou a direção da barca

Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Em tempo de macumba - 1972

Capa da edição que ora comentamos, com uma ilustração representando Heitor dos Prazeres e João da Bahiana fazendo um "sambacumba". É, meus senhores, o samba surgiu nos terreiros de macumba, mais precisamente na casa de Tia Ciata, onde Mário de Andrade (no romance "Macunaíma, O Herói Sem Nenhum Caráter") nos relata que o samba era logo depois da função religiosa; até hoje, o samba é um ritmo de percussão sagrado da Umbanda e, se não me falha a memória, da nação angola também... E esses dois bambas foram, por assim dizer, os pais espirituais do samba, pois, como se pode ver neste LP e na obra deles, os dois foram gênios tanto no samba profano como na macumba...



Capa da edição original, de 1958


01.
Vamos brincar no terreiro;
02.Ogum-Nelê;
03.Conga;
04.Pai Joaquim de Angola;
05.Vovó Joana do Aguiné;
06.Oxum-Maré;
07.
Nego Véio;
08.Vai I-Ao;
09.Ago-Iê;
10.Ogum Yara; 1
1.Homenagem a Oxalá;
12.Aruanda;
13.Rainha do Mar.


Saudações a todos! Já faz tempo que eu tenho vontade de comentar esse LP, e vou encerrar as postagens do ano (que, em matéria deste blog, não foi tão produtivo quanto eu esperava que fosse; as postagens foram muito poucas porque a inspiração devida nos faltou e nossos compromissos truncaram muitas idéias que eu pretendia botar aqui) com essa aqui que ora estou escrevendo.


Este LP, apesar de ter vários links para download na web, contar com a participação de mestres como João da Bahiana, Heitor dos Prazeres, Ataulfo Alves e Jorge Fernandes (o menos conhecido de todos) e ter tido três edições diferentes (com uma capa bem chocante na primeira, que mostra o corte ritual de um galo por uma mãe de santo[?], também mostrando uma moça[?] que aparentemente está lambendo o sangue do galo que lhe escorreu na mão - talvez seja um[a] orixá/entidade incorporado[a] - só pra fazer os carolas evangélicos, os vegetarianos e as associações protetoras dos animais surtarem), não tem sido valorizado e/ou comentado na sua importância para a música brasileira.


Como eu e mais pessoas de (muito) mais calibre que eu defendemos, a música popular brasileira, tal como a concebemos hoje, tem o seu pé (não um só, mas bem certamente os dois) dentro dos rituais religiosos de matriz afro-indígena. Principalmente o samba, que não só é um ritmo percussivo sagrado neste rituais que citei, mas também surgiu como música profana dentro de um espaço sagrado: a casa de Tia Ciata, que não só era mãe de santo como reunia em sua casa os grandes músicos populares e boêmios das primeiras décadas do século passado (aliás, é bastante esquisito nós, que vivemos até agora a maior parte de nossas vidas no século XX, termos que nos referir a ele como o século passado, dá a impressão de muita distancia temporal do que comentamos e sobretudo dá a impressão de que somos velhos, por sermos, apesar de não termos alcançado os 30 anos, homens do século passado); João da Bahiana e Heitor dos Prazeres estavam entre os frequentadores desta tão afamada casa, que está descrita (como já falei em outra postagem) em um dos capítulos do livro "Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter" (leiam o livro e vejam o filme que se baseou neste livro; é um dos raros casos em que o filme é melhor que o livro)...


Pois bem, meus senhores, neste disco temos ainda a participação do grande Ataulfo Alves e ainda a participação de Jorge Fernandes (dos quatro o menos conhecido), com bonitas fantasias musicais baseadas em cantigas religiosas da umbanda. Enfim, é um disco que mostra a música brasileira nas suas origens mais íntimas (e sempre renegadas). Como pesquisador (não tão hábil, mas vou dizer um dos pioneiros - olha a modéstia indo pro ralo!) deste tema, posso dizer que muita coisa está por se escrever e por ser pesquisada nesse respeito (as origens religiosas da música popular, ou mesmo sobre a música religiosa das religiões de matriz afro-indígena), só esperando que denodados cientistas humanos façam a sua parte e dêem suas contribuições nesse campo.... (se você conseguir domar sua preguiça para ler o que escrevi a respeito disso - a monografia que escrevi como exigência da Licenciatura em História pela Universidade Federal de São Paulo - está aqui: https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=explorer&chrome=true&srcid=0B4qdFTP4R1vLZDY4Njk2NDgtOWQ5NS00YzcyLThiZjctYTA1NmZkYTk4Nzdj&hl=pt_BR)



E aqui termino as postagens deste ano... No ano que vem, vou ver se consigo dar corpo a tudo que pretender publicar aqui, pois como bem disse uma colega blogueira (vai na minha lista de blogs favoritos e procura o blog "dois enes"; você verá o que essa colega andou escrevendo), "escrever é difícil pacas!" E a cada dia isto tem sido mais verdade; este post demorou mais de uma semana pra ser editado, porque o Blogger andou com uns problemas que não permitiam a formatação das postagens.. E vou fechar com esta letra, que é da faixa que escolhi para degustação de costume:

"Din din din, din din din,
Vamo saravá Pai Joaquim,
Din din din, din din din,
Vamo saravá Pai Joaquim!

Já encourei o pandeiro,
Já afinei a viola,
Agora vou pro terreiro,
Chegou Pai Joaquim da Angola"


Para ouvir a faixa 04, "Pai Joaquim da Angola", na interpretação de Ataulfo Alves, é só ir aí embaixo:
http://www.esnips.com/displayimage.php?pid=33019137

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Fundo de Quintal - Nossa Verdade - 2011


01. Nossa Verdade; 02. Lá Debaixo Da Tamarineira; 03. Teu Jogo; 04. Fé Em Deus; 05. Cacique a Consagração; 06. Coisa Da Raça; 07. Fera No Cio; 08. Passou Da Hora; 09. O Bom Sonhador; 10. Subtração; 11. O Poder De Curar; 12. Romance Proibido; 13. Nossa Bossa; 14. Luz Da Alvorada; 15. Conselho/ Insensato Destino.



Saudações a todos! Depois de um longo tempo sem escrever nada para este blog e ver as visitas a ele caírem vertiginosamente, tudo pela maldita falta de inspiração... E vamos então retomar à carga com um dos mais tradicionais e melhores grupos de samba e pagode, o Fundo de Quintal.E vou dizer que o disco que ora comento foi uma grata surpresa, pois fazia muito, mas muito tempo (precisamente desde o "Festa pra Comunidade", de 2003) que o Fundo não lançava um disco de estúdio prestável; parecia que as saídas (pacífica e sem brigas de ego, diga-se de passagem) dos ícones Arlindo Cruz e Sombrinha ( o primeiro em 1994 e o segundo em 1992, salvo engano) e do violonista e grande poeta Cleber Augusto (em 2004) haviam ferido de morte o talento do grupo, e que este sobrevivia mais de sua fama passada do que de seu trabalho presente...


De fato, a maioria das coisas que o Fundo de Quintal lançou neste interregno foram DVDs de alguns shows nos quais o repertório era quase todo composto pelos antigos sucessos do grupo e por sambas famosos de antigamente. Os discos de estúdio ficavam muito a desejar se comparados com os do tempo da clássica formação: Arlindo Cruz, Sombrinha, Cleber Augusto, Sereno, Bira Presidente e Ubirany, que de 1982 a 1992 fizeram a cabeça de muitos adoradores do ritmo nacional, inclusive eu. O Fundo ainda teve o Almir Guineto, o Jorge Aragão, o Neoci, o Walter 7 Cordas e o Mário Sérgio (os dois primeiros seguiram carreira solo de grande sucesso - embora atualmente estejam sumidos - o Neoci e o Walter faleceram quando faziam parte do time e o Mário Sérgio ainda não emplacou na carreira solo), bem como ainda está com o Ronaldinho, integrou o baterista Ademir e está estreando o Flavinho, mas nada que se comparasse a esta famosa formação, que, entre outras coisas, nos ensinou a gostar de samba.



Me lembro que aos quatro anos de idade eu estava tomando água com xarope de groselha (uma coisa que as crianças tomavam em quantidades industriais no meu tempo, uma vez que os sucos em pó eram uma porcaria de tão artificial que era o seu gosto e os refrigerantes eram relativamente caros para serem consumidos todos os dias, pois não haviam muitas marcas disponíveis no mercado como hoje; atualmente, não se acha facilmente groselha pra se vender no mercado, e a que existe não é nem sombra da groselha de antigamente, em que bastava se botar um dedo de xarope num copo americano e botar o resto de água para se fazer uma bebida palatável. Hoje em dia, não se consegue o mesmo efeito com meio copo de xarope) dentro de um cantil de plástico e estava observando meu pai passar alguns de seus LPs para fitas cassete (meu pai tinha o costume de fazer coletâneas dos LPs que possuía - e até hoje possui; me lembro das diversas vezes em que fomos juntos, eu e ele, comprar LPs na finada loja Mappin, aquela mesmo da Praça Ramos - em fitas cassete para que pudesse usá-las dentro do toca-fitas do carro) quando escutei pela primeira vez os acordes do samba "Receita da Sorte" (do disco que o Fundo lançou em 1986, "O Mapa da Mina"), notadamente a introdução em que o Arlindo Cruz dá uma castigada no banjo. Foi o primeiro samba que me lembro de ter escutado, e ainda me lembro que aquilo mexeu comigo de uma tal forma que dali pra diante, na altura dos meus quatro anos, eu pude decidir que o samba era o meu gênero favorito...



Mas até agora eu não falei quase nada do disco, vejam vocês como sou tapado! Como já havia dito, esse disco foi uma grata surpresa, pois o Fundo já estava começando a viver de seu passado. Quem sabe foi porque não estava mais gravando muito com bons compositores, e agora voltou a gravar obras mais elaboradas na composição. Nos 30 anos de trabalho solo do grupo, o Fundo neste disco finalmente voltou a ser a reunião dos melhores de seu tempo no pagode, e os fãs esperam que este disco seja apenas uma de outras brasas que ainda virão...


Para ouvir a faixa 12, "Romance Proibido", é só clicar aí embaixo:
http://www.esnips.com/doc/b62c356b-a030-4fe6-9181-58ac0978ba2d/12.-Romance-Proibido

domingo, 21 de agosto de 2011

Que declaração de amor....


Isso aí é a contracapa de um livro de piadas do Ary Toledo, e ao ler isto eu me pergunto o seguinte: como o cara faz pra ser genial e engraçado ao mesmo tempo??? Eu juro que tento, mas não consigo....

domingo, 17 de julho de 2011

Cadáver Pega Fogo Durante o Velório - 1983



01. Porta afora; 02. Altivez; 03. Com todas as letras; 04. Carne no jantar; 05. Cicatrizes; 06. Tal como Nazareth; 07. Vã esperança; 08. Prazer qualquer; 09. Flores de plástico ao amanhecer.


Saudações a todos! Dessa vez eu vou falar alguma coisa sobre um dos discos mais polêmicos e intrigantes que eu já escutei, o que já pode ser notado em seu título e em sua capa, que relembram o famoso e já extinto jornal "Notícias Populares" (do qual se dizia que se fosse espremido e/ou torcido, saía sangue), que para quem não se lembra era um jornal que publicava notícias sensacionalistas de toda espécie, como "Aumento de merda na poupança", "Gorda de 400 quilos vai posar nua"; "Queria troco e levou bala", "Bebê-Diabo arrasa com ritual de umbandista", "Desapareceu Roberto Carlos", tudo com o intuito de fazer da desgraça humana (ou de crônicas policialescas inventadas sobre ela) objeto de riso e interesse do povo...


E, com efeito, podemos dizer que este disco e constitui numa versão cantada do famigerado jornal, e aí está o efeito chocante do disco: Fernando Pellon, que compôs todas as faixas do disco e emprestou a voz para duas faixas, nele falou de temas extremamente mórbidos, como suicídio, violência doméstica, loucura, comparações mórbidas sobre o sentimento amoroso e o caso cômico de um defunto que se indigna por ter seu túmulo ornado com flores de plástico no dia de Finados... Tudo isso cantado por bons nomes de nossa música, como Cristina Buarque e Nadinho da Ilha...


Pois bem, meus caros (e ainda não muitos) leitores, por todos estes motivos citados é uma obra bastante intrigante, por falar dum jeito bem corriqueiro e chão de temas que até hoje são tabus em se tratando de música (afinal não se vê muita gente fazendo música brincando com suicídio ou violência doméstica, tal como vemos nas faixas "Com todas as letras" e "Altivez"); talvez por isso este disco tenha caído nas garras da censura e acabou também caindo no esquecimento apesar da ousadia de sua proposta. O que eu posso dizer é que vale a pena ouvir, mas que cada um faça seu julgamento...


Vamos parar porque a inspiração pra escrever algo prestável e útil já me foge, pois como diria Voltaire, existem duas coisas capazes de torar ridículo mesmo um grande homem: a necessidade urgente e inadiável de falar e o embaraço de não ter quase nada de útil ou inédito a dizer... Quem, como eu, já está há quase dois anos mantendo um blog como este, já se defrontou com este paradoxo várias vezes...


Para ouvir a faixa 04, "Carne no jantar", na interpretação de Nadinho da Ilha, é só clicar aí embaixo:
http://www.esnips.com/doc/91b91def-2751-474a-8aa2-e8928e7bf132/04-CARNE-NO-JANTAR

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Zico e Zeca - Segredo de amor - 1965


01. Nossa Senhora da Penha; 02. Cigarrinha; 03. Prima Porfíria; 04. Vida de Palhaço; 05. Segredo de amor; 06. Vem Moreninha; 07. A saudade dói; 08. Adeus Boiada; 09. Quando a saudade machuca; 10. Desprezo; 11. A verdade do carteiro. 12. Maldosa.


Saudações a todos! Pelas razões que eu já citei, as postagens do blog ficaram mais raras, mas não abandonamos este portal para o infer...digo, mundo que é essse blog que já está há quase dois anos no ar. E vamos fazer o de sempre, que é comentar música de qualidade (já estou há quase duas semanas pra escrever essa postagem, pois fui atacado por uma violenta gripe, e a inspiração estava bem longe), e dessa vez vamos falar de uma grande dupla sertaneja: Zico e Zeca.


Além de ser uma de minhas duplas favoritas, é uma das mais famosas da música sertaneja, fazendo parte de uma família de gigantes deste gênero: são irmãos mais velhos de Liu e Leu, outra dupla sertaneja famosíssima (e que talvez é a dupla que está há mais tempo atuante, contando com mais de 50 anos de carreira; já resenhei um disco deles aqui no blog) e primos de Vieira e Vieirinha (conhecidos por seu talento musical e por sua habilidade em dançar catira). Zico e Zeca atuaram juntos por quase 60 anos, até a morte repentina de Zico (é o que está empunhando o violão - ou será a viola? Ele tocava violão e o Zeca tocava a viola, mas na capa do disco o contorno não está claro - na capa do disco acima), no ano de 2009.


A dupla continuou com o filho de Zico e chegou até a gravar um CD no ano passado, mas o universo da música sertaneja já está dominado pelo "estilo universitário" e não há mais espaço pra o sertanejo "de raiz" (que, em determinado tempo, também foi um grande filão da indústria fonográfica e que à seus interesses foi moldado). E estas últimas palavras em parêntesis que escrevi são para fugir um pouco dessa ladainha: "a música de hoje é uma porcaria, não se faz música como antigamente, isso nem se compara com o créu, e patatipatatá....". Com o tempo percebemos que, por mais que não gostemos dos sucessos populares de hoje, não podemos ficar o tempo todo colocando nosso gosto pessoal de classe média boêmia como o parâmetro que deveria ser seguido pela sociedade; o popular sempre será objeto de estigma, e vira "cult" quando cai no gosto dessa classe média boêmia que citei, que na sua mania de pseudointelectualidade quer ditar o seu gosto asséptico para os que não comungam dele...


Algum filho-da-puta vai me perguntar: "Mas não é justamente isso que você faz no seu blog?" Bem, a esse cidadão eu poderia responder que esse blog é como a minha casa, e como homem adulto e civilmente capaz nela eu faço o que bem entender (se eu quiser cagar no chão da cozinha e deixar uma semana sem limpar, isso é problema meu, muito embora ao saber disso você provavelmente não aceitasse qualquer convite para me visitar ou para comer uma refeição preparada por mim), mas pra não parecer que sou tão radical a ponto de eu ter a ousadia de fazer uma necessidade fisiológica na cozinha, demostrando assim minha condição de macho-alfa (ou de completo retardado), eu digo que não tenho a pretensão de, em "meu saber de ignorâncias feito", mudar o gosto de ninguém: que o povaréu continue ouvindo as músicas de seu gosto, uma vez que isso alegra o espírito e à princípio não faz mal a ninguém, mas que também conheça e não despreze os que, a seu tempo, mostraram ao mundo o seu talento; é como eu digo para os alunos da escola (pública) em que eu trabalho, quando estes me surpreendem cantando ou escutando algo de meu gosto: "Eu não tou dizendo que você tem que parar de escutar funk, mas você também precisa ouvir Bezerra da Silva (ou qualquer outro que me venha à lembrança na hora), precisa ampliar seus horizontes e a sua mente"


E eu acredito que o espírito deste blog seja justamente esse, o de mostrar que eu acredito que em matéria de música existe um mundo para além do funk, dos pagodes e do pop rock mela-cueca e dos cantores evangélicos de voz estrídula, sem entretanto tentar destruir este mundo que eu citei ou me recusando a conhecê-lo...(assim como alguns membros da família real inglesa ainda lêem "O Príncipe" de Maquiavel trancados no banheiro, eu ás vezes me surpreendo escutando um pagode do Exaltasamba ou ouvindo um funk daqueles do tipo do "você, você quer") e de, é claro, ser um espaço onde eu possa dizer o que eu penso sobre tudo o que me rodeia, ou o que me cai nos ouvidos, ou o que consigo depreender das leituras que faço...


Mas e o disco? Olha, meus senhores, o disco é bem legal, e eu acredito que apesar de ele não ser uma obra-prima da música sertaneja, você pode tomá-lo como um bom exemplo de cultura musical caipira; nele podem ser encontradas, toadas, valsas, rasqueados e modas de viola, cantadas com a simplicidade de dois grandes sertanejos, pois a verdadeira música é universal, uma vez que ela sempre se reporta aos sentimentos universais comuns a toda a humanidade. Eu, pelo menos, gostei muito do disco, mas como acabei de falar, meu gosto é suspeito e minha moral é questionável...


Para ouvir a faixa 11, "A verdade do carteiro, é só clicar aí embaixo:


http://www.esnips.com/doc/d30ba8b7-631f-47a4-81c6-6f56ed036fbf/11.-A-Verdade-do-Carteiro

sábado, 14 de maio de 2011

Fernando Costa - Candomblé (É do Norte que vem) - década de 70?



01. Maria Mulambo; 02. É do Norte que vem; 03. Canto a Inaê; 04. Orixá Tempo; 05. Meus Amigos; 06. Pai Pena Branca; 07. Cavalheiro Ogum; 08. Mamãe Dandalunda; 09. Pescador, cuidado!; 10. O lírio do Caboclo Serra Negra; 11. Yaô Darumê; 12. Guerreiro da mata.


Saudações a todos! De uns tempos pra cá, tenho notado que as visitas à este blog tem caído consideravelmente, uma vez que as postagens ficaram menos frequentes; isso acontece porque nosso tempo livre tem se reduzido consideravelmente, e nós procuramos usá-lo inteiramente para nosso descanso. Ora, eu procuro fazer com que tudo, ou quase tudo, que é postado aqui neste blog seja feito com o máximo de carinho e cuidado (não são raras as postagens que foram precedidas por um trabalho de pesquisa sobre o assunto; como eu sou leigo, nunca cito fontes, o que não significa que neste blog eu escrevo simplesmente o que me vem à cabeça e que se fodam os fatos, como se eu fosse um grande sábio!) e algumas vezes isto demanda mais do que um dia para ser feito...


Ou seja, tem ficado um pouco complicado atualizar este blog, pra que ele não fique apenas reduzido aos devaneios de um besta metido a sabichão; o que se bota aqui tem que ter um mínimo de fundamento. E nem sempre nos encontramos suficientemente inspirados pra fazer algo. E depois destas divagações, vamos finalmente comentar a obra. Eu a encontrei por acaso, em divagações pela internet. Como todos sabem, sou um aficionado por música das religiões de matriz afro-brasileira. Um belo dia em que eu estava vadiando vendo uns vídeos no YouTube, encontro por acaso um vídeo com uma das faixas desse disco. Fui até o canal de quem postou esse vídeo e descobri que era um canal para divulgar a obra de Fernando Costa, criado por seu filho.


Fernando Costa é mais uma dessas figuras que tem história considerável dentro da música, mas que foram relegadas ao esquecimento. Gravou alguns discos como cantor de músicas românticas, foi militar da Aeronáutica e também foi compositor e produtor musical. As fontes que pesquisei não dão muitas informações além dessas, mas dizem ainda que ele foi se retirando da carreira musical com o advento da Jovem Guarda. E citam o disco que ora comentamos como o retorno deste à carreira de cantor. Quanto ao disco em si, é uma obra bastante agradável de se ouvir; um violão (com um executor competentíssimo, diga-se de passagem) e um tambor (não pude identificar se eram atabaques, bongôs ou congas) executando serestas, sambas e outros rimos falando das coisas dos terreiros.


Pois bem, é uma obra recomendável para os que gostam da música que fala das coisas do santo e também dos que apreciam a música brasileira... Abençoado seja o filho deste operário da música que foi Fernando Costa, que disponibilzou para a consulta da posteridade uma obra raríssima... Como todas as músicas do LP estão no YouTube e infelizmente não estão disponíveis em outro lugar, eu botei o vídeo correspondente a faixa 03, "Canto a Inaê" Portanto, ó aficionados da música do santo, não me peçam esta obra pra baixar, uma vez que não a tenho em meu acervo particular... Boa audição, pois agora vamos saravar os pretos-velhos na casa de Seu Pena Verde...